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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Medicina é sacerdócio?

A pandemia de Covid-19 fez com que o povo brasileiro tivesse ainda mais empatia pelos profissionais de saúde

Por Analice Gigliotti Atualizado em 23 out 2020, 14h12 - Publicado em 23 out 2020, 14h09

No último domingo, 18 de outubro, comemorou-se o Dia do Médico. Foi bonito de ver as homenagens se multiplicando na imprensa, na mídia e nas redes sociais. A comoção se justifica: no instante em que a pandemia de Covid-19 atirou a sociedade no pânico, foi na Medicina e na ciência que residiu o alento.

Enquanto se pedia para a população ficar em casa, os médicos que iam para o front da batalha, encarar um inimigo com facetas ainda hoje desconhecidas. Foram quase 40 mil médicos contaminados e 65 óbitos. A classe médica, cujo ofício destina-se à dedicação ao outro, teve sua grandeza reconhecida e valorizada pelos brasileiros: seguidas noites, a população foi à janela, espontaneamente, aplaudir médicos e enfermeiros.

Minha história com a Medicina é bastante particular. Toda a família da minha mãe, Lupe Gigliotti, trabalha com artes. Eu não fugi à regra e também me aventurei, brevemente, nos palcos e na televisão. Pensava seriamente em seguir este caminho, mas quando estava no segundo ano do 2o grau – hoje Ensino Médio – vi minha irmã, Cininha de Paula, com alguma dificuldade em se estabelecer na sua vida profissional: ela havia largado a Medicina para ser atriz e enfrentava todos os percalços naturais dessa opção. A arte é uma escolha de vida economicamente instável e eu sabia que não queria passar por isso.

No entanto, pelo lado paterno, tenho uma linhagem de médicos. Meu pai, Antônio Carlos Gigliotti, e minhas irmãs são médicos. E eu sabia que se optasse por fazer vestibular para Medicina, passaria para uma boa faculdade. Meu pai dizia: “Medicina é sacerdócio”. E ele era um exemplo de sacerdote: se dedicava de corpo e alma. Eu, então, imaginava-me oferecendo em sacrifício aos homens em nome de Deus. Achava lindo, mas a frase tinha efeito oposto na escolha da profissão: ao invés de ajudar, me assustava.

Fiz o vestibular e realmente, como previa, passei para a UFRJ. O interessante é que não foi difícil encontrar intercessão entre a Arte com a Medicina: elas se tangenciam na relação com o paciente.

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Há quem defenda que o médico deve ser duro para não sofrer com o paciente. Discordo. Médico tem que ser empático. Precisa ser como o ator. Ter a capacidade de se colocar no lugar do paciente, mas sem se misturar com ele. O bom ator é assim. Quando ele entra em cena para fazer o papel de padre, ele “é” o padre. Mas não deixa de ser o ator. Quando uma atriz representa uma prostituta, ela “é” a prostituta. Sem preconceito, sem julgamento. O médico também precisa ser assim. Antes de mais nada, humano em todos os aspectos. Profundamente humano e versátil.

Alguns atores, para darem conta de seus personagens, fazem o que se chama “laboratório”, ou sejam, frequentam locais específicos e observam pessoas que passam pelas mesmas situações que precisam representar em cena: da Cracolândia ao prostíbulo, da clínica médica ao monastério, atores mergulham no ambiente onde vivem os tipos da vida real que precisam reproduzir em busca de verossimilhança e entendimento daquele universo.

Assim como os profissionais da cena, o bom médico também deve ser um observador: é preciso tempo e atenção para “traduzir” o objeto observado. Profissionais de saúde são, ao mesmo tempo, partícipes e espectadores de dezenas de vidas, diariamente. Porque não adianta um médico prescrever uma conduta sem ter a dimensão do quanto aquilo vai reverberar de acordo com a história de vida do paciente. Recomendar a um diabético que não coma doces, por exemplo, requer um entendimento do quanto aquela pessoa está motivada o suficiente para ser capaz de atender ao que se pede, por mais óbvio que aquilo seja o melhor para ela.

Nunca me senti sacrificada pela Medicina. Sacerdócio sim, mas pela dedicação porque precisamos estar disponíveis, já que a dor do outro não espera. Respondo aos meus pacientes em fim-de-semana, feriado, férias, viagem internacional. Meu celular dorme ligado.

Depois de 30 anos de profissão, entendo plenamente o que o meu pai queria dizer ao afirmar que Medicina é sacerdócio. E agora, apesar de forma trágica, 200 milhões de brasileiros também o entendem.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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