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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Maradona e a luta contra as drogas

Trajetória do genial jogador é marcada pela dependência em cocaína, álcool e remédios

Por Elizabeth Carneiro Atualizado em 27 nov 2020, 18h30 - Publicado em 27 nov 2020, 15h39

O mundo do esporte acaba de perder um dos maiores ídolos da história. Morreu anteontem o argentino Diego Maradona, gigante dos campos de futebol. Para além da tristeza da perda de um ídolo mundial – em um ano especialmente marcado por tantas perdas – fica a melancolia da sensação de despedida precoce. Maradona tinha apenas 60 anos ao perder a vida para uma parada cardiorrespiratória.

Mas o herói da bola perdeu outras batalhas ao longo da vida. Se entre as quatro linhas era o “Deus do futebol”, como tantos o definem, na vida particular Maradona travou uma longa e inglória batalha de décadas contra a dependência de drogas.

“Que jogador poderíamos ter tido!”, disse Maradona a respeito de si mesmo, em 2005, admitindo que poderia ter sido jogador ainda maior se não tivesse começado a ser consumido pelo vício, no começo dos anos 80, com pouco mais de 20 anos, quando morou na Espanha. Daí em diante, seus louros esportivos se confundem com tristes episódios envolvendo drogas. Em 1991 foi suspenso por uso de cocaína, na Copa do Mundo de 1994 foi pego por doping por uso de efedrina, seguidos por sucessivas internações e tratamentos na tentativa de se livrar do vício.

Com o passar dos anos, Maradona se deu conta da cilada em que estava metido e usou sua projeção e popularidade para alertar os jovens do perigo que os entorpecentes podem representar não apenas para os usuários, mas também seus amigos e familiares. “Vou dizer uma coisa: não às drogas. Que não tenham espaço na sociedade e nas famílias. Eu não fui mal educado, eu aprendi mal. Na minha casa me educaram com amor e, quando eu consumia cocaína, eu virava um zumbi”, resumiu.

Maradona viveu o suficiente para ter a clareza de se dar conta que o vício em cocaína foi o maior erro de sua vida. “A droga é o maior problema, a droga mata. Se tivesse seguido usando, a esta idade já teria morrido”, declarou o craque há quatro anos, em entrevista à uma rádio italiana. Seus últimos anos da vida foram marcados pelas consequências nocivas do abuso de narcóticos por longo período: sua saúde ficou debilitada, a capacidade de trabalho era bastante reduzida, viveu estragos na vida familiar e estava “ansioso, deprimido e angustiado”, segundo o jornal argentino “Clarín”. É como se Maradona tivesse vindo ao mundo para dar alegria, mas sem conseguir usufruir do bem estar que proporcionava aos outros com suas incríveis performances.

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Como especialista em compulsões, várias vezes me questionei sobre a capacidade do corpo de Maradona suportar tantos maus tratos e torcia por sua recuperação. Acredito que ele aguentou por ter o desejo genuíno de parar com o vício. Ele tentou. Tentou muito! Mas já era um verdadeiro escravo da droga. Era ela quem estava no comando da vida do “rei”.

Aconteceu com ele o que ocorre com a grande maioria das pessoas no início do consumo de drogas: não acreditar que podem perder o controle, que podem vivenciar apenas os aspectos positivos iniciais do uso na busca incessante pelo prazer. Não sabem e se negam a acreditar que a relação com a droga pode encobrir buracos da alma muito profundos e que pode-se passar a buscá-la desesperadamente para continuar anestesiando dores nunca tratadas ou olhadas, “se sentir mais poderoso”, menos deprimido ou ansioso ou até mesmo mascarar uma auto estima frágil, gerando com o uso uma sensação de poder e bem estar provisórios. E como o efeito passa rápido, o dependente segue retornando ao seu consumo para se manter desconectado dele mesmo e das suas vulnerabilidades. Isso sem considerar o próprio processo neurobiológico cerebral que faz com que o corpo clame por mais droga pela dependência da substância de forma mais objetiva.

Apesar de não ter morrido em decorrência direta do uso das drogas, o menino pobre que cresceu na vida pelo talento incontestável, que deixou o mundo de queixo caído com sua genialidade em campo, perdeu a guerra para a dependência de drogas. E mais uma vez falamos nesta coluna sobre o impacto desta “viagem de transição” entre mundos, vivenciada frequentemente na vida de jogadores de futebol. Fazem uma viagem sem bússola, mapa ou qualquer tipo de preparo psicológico para que sejam detectadas vulnerabilidades emocionais, marcas de vida, histórias de traumas experienciados na infância, para conseguir suportar as tentações e seduções num mundo de riquezas e valores distorcidos que favorecem a busca pelo prazer imediato e as compulsões em geral.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

 

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