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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Lucidez no poder

É possível identificar traços distintos de personalidade em quem tem o poder nas mãos, mas daí a rotulá-las de “loucas” vai uma distância significativa

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 18 Maio 2020, 12h18 - Publicado em 15 Maio 2020, 13h14

Em meio à gigantesca crise gerada pela pandemia, estamos acompanhando os políticos “batendo cabeça”, entra e sai de ministros, perdidos em mandos e desmandos. Obrigatoriedade das máscaras, isolamento social, lockdown, eficácia da cloroquina, abertura de serviços essenciais: tudo é motivo para discordância. O que um poder decide, o outro veta. Na falta de consenso para um norte único, a população fica à deriva, perdida a respeito de como proceder.

No entanto, em meio ao caos, um fato curioso tem chamado minha atenção: a cada nova (des)ordem ou palavra de alguma autoridade, as pessoas – muitas até bem informadas e intencionadas – se saem com a generalista frase: “Fulano é louco”. Não é necessário citar nomes, porque eles estão representados sob diversas bandeiras políticas e correntes ideológicas. Talvez pela velocidade dos fatos ou o grande nível de informação, isso tem se repetido à miúde.

Tenho acompanhado o noticiário e muitas vezes não encontro loucura nas autoridades. Rotulá-los assim é uma banalização dos sofrimentos psíquicos. Ao contrário, seus comportamentos me soam pensados e pertinentes ao projeto que representam. E mais: encontram eco e aceitação em significativo percentual da população. É possível identificar traços distintos de personalidade em algumas pessoas que, historicamente, tem o poder nas mãos. Mas daí a rotulá-las de “loucas” ou “malucas” vai uma distância significativa. Na imensa maioria das vezes, suas atitudes não são frutos de patologia.

O estigma acerca das doenças psiquiátricas levaram séculos para vencerem barreiras e serem minimamente aceitos na sociedade. Valer-se da falta de sanidade para desqualificar o comportamento desta ou daquela figura é um desserviço e uma injustiça com o sofrimento dos verdadeiros portadores de transtornos mentais.

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Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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