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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Quando a fé “costuma faiá”

Líderes religiosos se valem da boa fé e vulnerabilidade de seus seguidores como fachada para uma série de irregularidades

Por Elizabeth Carneiro - Atualizado em 2 out 2020, 11h26 - Publicado em 2 out 2020, 10h08

Nas últimas semanas, pretensos líderes espirituais caíram em desgraça, envolvidos em escândalos de diversas ordens: financeira, fiscal e/ou sexual. A deputada Flordelis, evangélica que ficou famosa ao adotar dezenas de crianças, agora se vê acusada de ser a mandante do assassinato do marido, numa trama que envolve orgias, conspirações familiares e ambição desmedida. O padre Robson de Oliveira Pereira, de Goiás, foi envolvido em acusações de desvios de mais de 60 milhões de reais de doações de fiéis. Para fechar o mês de setembro, o deputado Pastor Everaldo – muito mais deputado que pastor – foi preso sob acusações de desvio na Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. Contrariando os lindos versos de Gilberto Gil, nas mãos de impostores “a fé costuma faiá”.

Flordelis, padre Robson e Pastor Everaldo se juntam à uma triste lista de líderes religiosos que caíram em desgraça, onde já estão Prem Baba, João de Deus, o casal de bispos Estevam e Sonia Hernandes e dezenas de padres acusados de pedofilia na Igreja Católica. De diferentes maneiras, algumas lideranças espirituais fazem uso da fé e da vulnerabilidade dos seus seguidores para estabelecerem relações abusivas. Pregam o que não praticam em episódios constrangedores de hipocrisia.

Pureza de espírito, luz e perfeição. É o que flor de lis representa na França. Já a nossa Flordelis brasileira parece se valer de atributos manipulativos totalmente impuros e extremamente sofisticados. Ela era vista na comunidade como uma mulher de imenso coração, capaz de adotar e maternar filhos que não eram seus. Era uma ação tão comovente que ganhou a atenção e o investimento de um segmento da iniciativa privada de boa fé. Pessoas idôneas à procura de uma causa para fazer um bem social. Quem não se apaixonaria por essa flor? Trazia vocação, paixão, abdicação de suas próprias necessidades pessoais em prol de crianças desfavorecidas.

Flordelis tinha uma performance típica de uma atriz Hollywoodiana travestida de deusa. Convenceu à todos. Ganhou fama, virou cantora evangélica, montou uma igreja e virou deputada federal. Há muitos mistérios que envolvem o assassinato de seu marido, mas uma coisa é certa: bons valores, amorosidade e ética não norteavam a conduta de Flordelis e nem o que ela promoveu na sua “enorme família” fake. Porque o que acontecia por trás dos holofotes era um funcionamento de gangue.

Existia dentro da mesma casa o time da Flordelis e o time do marido pastor. Um time tinha regalias como presentes e acesso à uma geladeira mais abastada de comida (o dela) e o time do pastor que sofria restrições destes “privilégios”. Isso não é família.

Como tudo isso chegou a tal ponto, ainda não temos dados suficientes para avaliar. O que não se tem dúvidas é que uma mãe que implora aos filhos para que eles matem o pai, certamente “não é de Deus”. Sua conduta não tem alinhamento com leis de ética e valores espirituais mínimos que deveriam nortear qualquer existência. Não estou com isso dizendo que o pastor era um santo. Não sabemos.

Também não há dúvida de que a relação do casal era de grave adoecimento.  Mas como disse um de seus filhos indignado com a mãe: “se está infeliz, se separa, não o mate”. Parece tão óbvio, não? Isso nos faz pensar que existem questões como poder e dinheiro – parece ter sumido uma quantia no dia posterior à morte – e necessidade de submeter, controlar, seduzir, enganar o outro. Flordelis relata ter feito sexo com seu companheiro em cima do carro no dia do crime. “Adoço a vítima para ela não desconfiar?”, deve ter pensado a algoz. Ela era tão dissimulada que conseguia fingir um amor seguro para esse companheiro a ponto dele não perceber tantos movimentos da esposa para tirar a sua vida. Relatos afirmam que, junto com algumas filhas, a esposa já tinha tentando envenenar o marido um par de vezes, sem êxito.

Um detalhe bastante sórdido: Anderson foi um dos meninos acolhidos por Flordelis em sua casa, como era sua prática. Namorou uma de suas filhas e depois casou-se com “essa flor”: ele com 17 e ela com 33 anos. Imaginem o que uma mulher desta idade pode ter de ascendência sobre um adolesceste. A vida de ambos regada de mistérios, brigas e mentiras. O filho que ambos diziam ser o único filho biológico do casal, era também adotivo. Há toda uma construção de história a ser vendida para “o público”.

Certa vez, fazendo um retiro de mindfulness com Jon Kabat-Zinn em Nova York, um homem, sabendo que eu era brasileira, me procurara em busca de informações sobre “John of God”. Ele tinha câncer e ouvira falar que “John of God” poderia salvá-lo. Falei que não o conhecia mas gostaria de um dia ir à Goiás para sentir a paz e a energia incríveis que eram narradas por todos  que por ali passaram em busca de respostas, desde a cura de doenças graves até simplesmente uma experiência espiritual.

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Como uma constante buscadora de aprimoramento espiritual, eu era uma desejosa antiga desta experiência. Chamei minha mãe, que mora em Goiânia, para me fazer companhia algumas vezes. Toda vez ela recusava o convite. “Aqui em Goiânia dizem que a coisa lá começou séria, mas hoje virou algo muito comercial”. Uma cidade inteira estruturada em torno do comércio de João de Deus. A razão que me poupou da exposição à sordidez de “John of God”? Sorte.

João, um brasileiro que iniciou sua vida fazendo tráfico de pedras, um psicopata dos mais sórdidos. Fazendo uma reflexão distanciada pelo tempo, é pouco provável cumprir a trajetória de traficante à curandeiro sem que ninguém fosse atrás de pistas sobre o que seu passado poderia nos dizer de sua índole. Na verdade, não queríamos destruir nossos sonhos. Santificado por nós humanos, loucos por um salvador. O que João, o traficante, fez? Descobriu como milhares de pessoas com desassossegos internos, por terem doenças clínicas, depressão ou serem apenas buscadores de experiências de desenvolvimento espiritualista, precisavam ter fé na possibilidade de uma vida melhor.

João, além de traficante, é responsável por uma encenação cujos parceiros, em sua maioria, eram devotos de sua “santidade”. Quantos largaram suas vidas para viver em Abadiânia, para ajudar na cura que ele prometia, para ajudar ao próximo e a ele mesmo? João de Deus fez o que alguns líderes religiosos fizerem ao longo da História: usou seu poder de suposto curandeiro para cometer estupros e abusos sexuais, alegando ser a forma de “transmitir sua energia”. Este era o caminho da cura pela cartilha de João de Deus. Suas vítimas eram pegas como num assalto, atônitas, ficavam confusas pois queriam a salvação, mas não queriam aquele canal para serem salvas. Mas como questionar Deus? E o medo de dizer não e algo lhe acontecer como represália energética ?

Numa outra ponta está Prem Baba. Diante de tantas barbaridades listadas neste artigo, precisa ser diferenciado. Endeusado por milhares de devotos, Baba pregava aos seus fiéis períodos de abstinência sexual e outros valores mas não os seguia, transgredia suas próprias orientações, por vezes, com algumas de suas devotas. O bom e velho “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Um crime de cunho ético, pois manipulava seus seguidores para que o idolatrassem, mas de uma instância não tão escabrosa quanto nossos outros personagens desta coluna, se nos dispusermos a fazer uma escala macabra de maus feitos.

Hoje penso que os melhores benfeitores sociais fazem questão de não aparecer e divulgar suas ações. Fazem o bem, sem holofotes, porque aquilo os fazem vibrar e dá sentido às suas próprias existências. Não há uma intenção egóica nestes casos.

Mas a grande pergunta deste artigo é: o que faz pessoas de todos os tipos, origens e experiências de vida caírem nestes embustes? Existe em nós uma necessidade de endeusar pessoas? De ser tomado por um sentimento de completude que uma pessoa supostamente “de Deus” nos traz? Nos realizamos através desta fé no outro? Nos deuses que habitam fora da gente e vem para nos salvar das dores, doenças, falta de fé na vida, falta de fé nas pessoas? Ou seja, parece que para termos a sensação de felicidade, esperança e paz precisamos buscar humanos-deuses ou super heróis.

Fico pensando quando começaremos a ter fé no mundo real. Um real com imperfeições, com facetas menos heroicas. Destinando aos deuses o lugar de deuses e ao homem o lugar de homem. Os imperfeitos podem ter projetos belíssimos sem ocupar esse lugar tão perigoso de divindade. Basta ser humano para ser imperfeito. Talvez, vendo o mundo sob essa ótica possamos ficar menos vulneráveis à sordidez dos que fazem mal uso da ingênua delícia de buscar o divino, e possamos nos ligar em movimentos que suportem incluir “a não divindade humana” e também “a imensa beleza da potência da verdade humana”. Podemos muita coisa! Não precisamos ser deuses ou encontrar deuses-humanos para que nossa vida ganhe um verdadeiro propósito.

A trágica pandemia e a grave recessão só tendem a aumentar estes vínculos que, com o tempo, se revelam nocivos. É importante deixar clara a importância da fé. Ela motiva, ajuda na resiliência, dá esperança. Diversas pesquisas científicas sérias apontam o poder da fé na recuperação clínica e psicológica de doentes. Nesse contexto, a fé, por si só, não é a questão. O problema são os intermediários.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

 

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