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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Juliana Paes: crises de ansiedade e o vício no cigarro

Em live, atriz dá uma aula de franqueza que pode ajudar milhares de pessoas

Por Analice Gigliotti Atualizado em 22 mar 2021, 14h49 - Publicado em 22 mar 2021, 14h27

Na ciranda que se criou em torno da vida dos artistas e celebridades, muitas vezes criam-se fantasias de que eles, pelo simples fato de serem famosos, não seriam atingidos por agruras que atingem o resto da humanidade. E a mídia nos últimos anos tratou de estimular esse hiato entre artistas e os “meros mortais”.  Por tudo isso é que o depoimento da atriz Juliana Paes em uma live com a também atriz Taís Fersoza é grandiosamente generoso. Juliana tratou de ignorar a armadilha do estrelismo e se solidarizou com a angústia que atinge milhões de brasileiros que também estão trancados em casa.

Tive momentos de ansiedade muito grandes. Ouvia as pessoas falando como era e não entendia. Às vezes a gente até tira pra menos. Quando a gente não sente, a gente fala que é frescura. Vivi algumas noites com aquela palpitação, aquela coisa. Quando você se vê em casa, trancado, lidando com seus próprios fantasmas todo dia, a ansiedade bate mesmo. As pessoas acham que a gente é famoso, rico e tem tudo, e ansiedade não tem nada a ver com isso. Não tem nada a ver nem com ser ansioso. Foi um momento de me entender, saber o que botei para baixo do tapete, que não encarei de frente e deixei para depois. Entendi que precisava de uma ajuda muito mais terapêutica do que de remédios”, disse francamente.

A contribuição de uma atriz tão popular em desmitificar os sofrimentos psíquicos já seria, por si só, de grande valia. Mas Juliana foi além. A atriz contou que a pandemia de Covid-19 a fez repensar sua relação com o cigarro. Ela confessou que parou de fumar durante a pandemia, muito em função da Covid-19. “Eu fiquei com medo. Eu tenho bronquite, asma e todas essas coisas. Eu não posso ser a pessoa que fuma várias vezes por dia, é mais veneno pra mim do que para pessoas que não têm problemas respiratórios. Eu tive uma crise em abril, no começo da pandemia, de ficar toda entupida. Falava ‘Meu Deus, eu vou morrer se pegar Covid-19, que ataca essa área. Se eu tiver debilitada, vou parar num respirador”, afirmou.

Juliana Paes contou qual foi a estratégia que adotou para se livrar do cigarro. “Usei aqueles adesivos (de nicotina), e funcionam. A gente tem a fissura pelo gesto, a companhia, a fumaça… tudo! São muitas coisas. Mas a parte química, o patch dá conta”, confessou. Atualmente, além do adesivo, existem vários outros recursos de reposição de nicotina que auxiliam para parar de fumar. Remédios com os princípios ativos vareniclina e bupropiona, administrados sob orientação médica, mostraram-se bons aliados nesse processo. Contudo, as estratégias medicamentosas tem o dobro de chances de eficácia se combinadas com terapia cognitivo-comportamental, direcionada especificamente para aumentar a motivação e prevenir recaídas.

Reconheço, na própria pele, a dificuldade narrada por Juliana Paes para largar o cigarro. Acendi o meu primeiro cigarro aos 11 anos, numa época em que começar a fumar cedo era comum. Larguei a nicotina aos 29 anos. Mas a nicotina não largou de mim. Tantas décadas depois, ainda sou capaz de reconhecer o desejo de fumar. A última vez foi há cinco anos. A dependência de nicotina é uma doença crônica, com tendência à recaídas. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, já afirma a frase atribuída ao presidente americano Thomas Jefferson. De todo modo, estou certa de que foi “a coisa mais importante que eu poderia ter feito pela minha vida”, como preconiza a Organização Mundial de Saúde.

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Não é um caminho fácil. Assim como muitos fumantes, Juliana Paes assume que o consumo de bebida alcoólica é um gatilho para o desejo pelo cigarro se manifestar. “É um vício muito maldito. Morro de vontade. Se eu tomar uma cerveja, meu Deus… cerveja é o gatilho. Não é fácil. Nunca vou dizer nunca, mas pretendo não voltar”, conta. De fato, o álcool é um fator a ser considerado por quem deseja parar de fumar, entre outros motivos, porque ele acelera o metabolismo da nicotina. Assim, a fissura por cigarro se apresenta mais rapidamente.

Meu saudoso tio Chico Anysio, morto há quase 10 anos, era categórico em afirmar que seu único arrependimento em quase 80 anos de vida era o vício no cigarro. “Meu pulmão foi meu grande adversário. O grande criminoso da minha vida foi o cigarro. Sou do tempo em que fumar era coisa de macho. Cary Grant fumava, Humphrey Bogart fumava… Conseguir que uma pessoa pare de fumar significa que ela volte a viver“, afirmou uma vez.

Chico Anysio conseguiu um feito raro: parar de fumar sozinho. Mas, infelizmente, já era tarde demais. Os danos ao pulmão e ao coração eram tão extensos que muito pouco poderia ser revertido. Mas para Juliana Paes ainda é possível. Para a maioria das pessoas que estão lendo este artigo, ainda é possível. E posso afiançar: vale a pena. Meu tio Chico concordaria.

Como psiquiatra e cidadã, agradeço. Obrigada, Juliana Paes.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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