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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Então é Natal… e o que você está fazendo?

OMS afirma que Papai Noel é imune ao coronavírus, mas brasileiro age como se também fosse

Por Elizabeth Carneiro Atualizado em 28 dez 2020, 11h49 - Publicado em 25 dez 2020, 20h03

Foi uma semana de notícias pouco usuais, para não dizer esdruxulas. Na tentativa de não estragar a fantasia das crianças (e sua preocupação com os presentes), a Organização Mundial de Saúde emitiu uma nota informando que Papai Noel é imune ao coronavírus. “As crianças devem ir cedo para a cama na véspera de Natal, mas o Papai Noel poderá viajar por todo o mundo para entregar seus presentes”, afirmou Maria Van Kerkhove, encarregada de supervisionar a gestão da pandemia na OMS, para alivio da criançada. Diante do risco elevado de que a pandemia se agrave no começo de 2021, a Organização Mundial de Saúde divulgou uma série de conselhos pouco comuns a esta época do ano: não abraçar, manter distância das outras pessoas, não aglomerar com parentes, usar máscara, limitar uma única pessoa a servir as bebidas e comidas, evitar ligar o ar condicionado e manter os ambientes arejados – o que no alto verão do Rio de Janeiro, convenhamos, é quase uma penitência. Sem dúvida, nada foi como antes no Natal de 2020.

No entanto, os pedidos de zelo e precaução reiterados constantemente pela OMS não encontram eco na sociedade brasileira. É como se a nossa população estivesse vivendo realidades paralelas. Pesquisa do DataFolha mostrou que o isolamento no país caiu ao pior nível desde o começo da pandemia. Segundo o levantamento, 7% dos entrevistados afirmam estar vivendo normalmente, sem qualquer alteração em suas rotinas, e 54% afirmaram que tomam cuidados, mas que se deslocam para trabalhar ou fazer outras atividades. Em pesquisa semelhante realizada em 3 de abril, esses números eram de 4% e 24%, respectivamente. Já os que se disseram completamente isolados em dezembro foram 5% dos entrevistados. O recorde havia sido de 21%, em abril.

Na busca pela reeleição, prefeitos resistiram em manter medidas mais drásticas de restrição de circulação, que poderiam ser impopulares e repercutir nas urnas. Resultado: desde 11 de novembro temos um novo crescimento no número de mortes por Covid-19 no país. Agora, em plena semana de Natal, a mais importante para o comércio, vemos novamente países como Alemanha, Inglaterra, Itália e Portugal adotando lockdown como forma de tentar conter a propagação do vírus.

Enquanto isso, no Brasil assistimos a resistência da população em recuar na flexibilização, mesmo diante do aumento de número de casos de contaminados e a falta de leitos nos hospitais. Vivemos, novamente, momento semelhante àquele do começo da quarentena, em que a melhor solução para combater a propagação do vírus era ficar em casa. Mas, desta vez, as pessoas não querem abrir mão dos pequenos momentos de prazer a que se permitiram com a falsa impressão de melhora da pandemia. Exaustos, os jovens – mas não apenas eles – romperam o isolamento para frequentar bares, baladas, shows e festas. Com isso, não apenas se contaminaram, mas também levaram a doença para dentro de casa, contaminando pais e avós. Chefes de serviços de atendimento à Covid-19 nos hospitais tem reiterado que são muitos os leitos ocupados por jovens, que chegam até a serem entubados.

A realidade é que praia, barzinhos, shoppings, restaurantes, estão todos lotado. A situação do Rio é ainda mais grave, porque recebeu uma enxurrada de turistas que não puderam viajar para o exterior. Bastar dar uma caminhada no calçadão para constatar a quantidade de pessoas de fora da cidade. Do Leblon a Campo Grande, do Mercadão de Madureira ao Village Mall, o brasileiro se permitiu viver um negacionismo cego, como se estivesse imune à doença, assim como Papai Noel.

O fato é que com pequenas permissividades, cada um furou a bolha à sua maneira. E com todos furando as bolhas… chegamos até aqui, quase mil mortes por dia. Mantendo esse ritmo, chegaremos ao final de 2020 com quase 200 mil brasileiros mortos de Covid-19, com viés de alta nos primeiros meses de 2021.

Então é Natal… e você? O que você está fazendo para proteger a si e a quem ama?

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

 

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