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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Se errar é humano, perdoar também é

Dia do Perdão nos lembra que perdoar tem a ver com voltar-se para dentro e não para o outro, assumindo a reponsabilidade pelo que sentimos

Por Sabrina Presman - Atualizado em 28 set 2020, 13h37 - Publicado em 28 set 2020, 13h33

Desde criança, aprendi a importância de reservar uma época do ano às reflexões sobre o perdão. Os dez dias que separam o Ano Novo judaico e o Dia do Perdão devem ser voltados à introspecção, com a finalidade de se fazer uma revisão de quem nós, por ventura, magoamos ou prejudicamos, com ou sem intenção. A partir de tal clareza, o exercício é pedir perdão para, assim, iniciar um novo ano com a consciência limpa e com a intenção de sermos melhores no ciclo que se inicia.

Falar sobre perdão é necessário porque seres humanos são imperfeitos o que significa, inevitavelmente, que irão errar. Mas a beleza do perdão consiste em que com ela vem a esperança e a renovação. Se a cada vez que errássemos, fossemos julgados de forma impiedosa e punidos sem uma segunda chance, quantos de nós ainda estariam aqui? Então, seja na relação com Deus, com o próximo ou com nós mesmos, a prática do perdão é necessária e deve ser constante. Se temos certeza que vamos errar, também precisamos exercitar a crença que podemos perceber, nos arrepender e consertar.

Quantas vezes no nosso dia pedimos desculpas de forma automática e corriqueira? Isso pode nos levar a uma impressão de que estamos conectados com o conceito de perdão. Mas, na verdade, arrependimento é um processo em que é necessário reconhecer, confessar, se arrepender e finalmente decidir e se empenhar para não fazê-lo novamente.

E esse é um dos pontos-chaves que tornam a prática do perdão uma oportunidade. Não é “o foi mal se te magoei” que faz a diferença. O verdadeiro propósito é a oportunidade de mudança, de deixar para trás aquilo que você percebe que não foi bom e exercitar seu livre arbítrio para escolher diferente, para retornar aos seus valores e sua essência que, às vezes, ficam perdidos pelo caminho mas ainda sim estão lá. Errar não faz de nós más pessoas, condenadas a sermos assim pra sempre. Errar faz de nós humanos e perdoar e pedir perdão nos permite não permanecer presos ao passado e estagnados nas nossas falhas.

Quando conto para alguém que vou fazer jejum por conta do Dia do Perdão, de acordo com a tradição judaica, sempre ouço “coitada, nossa que ruim, não pode comer nem uma coisinha?”. As pessoas tem uma visão desse dia com algo triste, penoso, como se fosse um sofrimento para pagar os pecados. No entanto, nada poderia ser mais diferente disso. Entrar em contato com a consciência, sem distrações, se dedicando a sentir a emoção, a perceber os erros e reconhecer que a busca por um caminho diferente nesse novo ciclo que se inicia torna esse dia o mais feliz do ano. O Dia do Perdão me coloca um sorriso no rosto e uma leveza na alma porque sei que posso mudar minha vida para melhor.

Mas não me levem a mal. Longe de mim querer dar uma de “Poliana” e acreditar que trata-se de um caminho lindo e perfeito. Perdão não é negar seu sofrimento ou fechar os olhos para algo negativo que alguém causou. Não é abrir mão dos sentimentos ou permitir que nos machuquem de novo, aceitando passivamente a agressão. O ato de perdoar está relacionado a voltar-se para dentro e não para o outro, assumindo a reponsabilidade pelo que sentimos e tirando tal poder do outro. Sou eu quem passa a controlar meus sentimentos e deixo de ser a vítima buscando a minha liberdade, e não ficando refém de quem me machucou. Nelson Mandela tem uma frase incrível sobre isso: “Quando eu saí em direção ao portão que me levaria à liberdade, eu sabia que, se eu não deixasse minha amargura e meu ódio para trás, eu ainda estaria na prisão”.

Quando nos sentimos machucados, comumente respondemos com o instinto inato de vingança, querendo também provocar no outro aquela dor, ou reagimos em sentido oposto, acionando nosso sistema de evitação. A vingança provoca guerras, violência, terrorismo. “Olho por olho e o mundo acabará cego”, já dizia Gandhi. Mas ao atingirmos o outro por vezes o resultado não é positivo já que acabamos por permitir que ele nos desperte o pior que existe em nós. Será que a satisfação virá se provocarmos a mesma dor no outro? Já evitar a situação e tentar fingir que não aconteceu aumenta a possibilidade de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. O que as pesquisas realizadas para entender o impacto do perdão na saúde física na última década descobriram só reforçam a importância desse exercício: o perdão reduz a pressão arterial, diminui ansiedade e depressão, fortalece o sistema imunológico, aumenta a expectativa de vida, além de reduzir o cortisol, o que ajuda no manejo do estresse.

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Nessa época, todos os anos desde que me entendo por gente, organizo a minha lista de pessoas para fazer minhas reparações. Nunca foi um recado generalista na linha “me perdoem aqueles que eu machuquei” no mural do Orkut ou Facebook, recurso tão comum nos dias de hoje. Meus pedidos de perdão sempre tiveram nome e sobrenome, uma busca ativa para encontrar as pessoas e realmente abrir meu coração com humildade de assumir minha imperfeição e o compromisso de um comportamento diferente. Um verdadeiro comprometimento.

Este ano, estranhamente, não consegui. Venho refletindo sobre o assunto nos últimos tempos e, ainda assim, não consegui construir a minha lista com uma intenção genuína. Mesmo com amigos falando que é 2020 quem tem que pedir perdão, confesso que fiquei decepcionada comigo por não conseguir me conectar com algo que sempre me foi tão importante.

Mas ontem passando por um quiosque de flores na rua, dessa lindas e coloridas, com cara de pedido de perdão, eu parei por alguns momentos e comprei as flores para mim. A sensação de alívio e bem-estar tomou conta de mim quando percebi que este ano eu preciso me perdoar. As consequências de não se perdoar podem ser mais graves do que a de não perdoar os outros, porque convivemos todos os dias conosco, carregando culpa e vergonha a cada olhar no espelho.

Esse ano eu preciso me perdoar por me deixar de lado tantas vezes e dar pouca atenção às minhas necessidades. Eu preciso me perdoar por virar tantas noites trabalhando mesmo sabendo que isso afeta a minha saúde. Ah minha saúde! Preciso me pedir perdão por ser tão boa em ajudar aos outros a cuidarem das suas questões e ser tão negligente com as minhas. Preciso realmente me pedir perdão por todas as vezes que me julguei por não ser a mãe perfeita que aparecem nos livros, por me sabotar nas minhas metas e prazos, por ter tanta compaixão com os outros e pouquíssima tolerância comigo. Reconhecer e me comprometer com a mudança sobre a minha dificuldade de pedir e aceitar ajuda. Preciso me pedir perdão por não saber mais o que me dá prazer, deixar de construir novos sonhos e por todas as vezes que eu me acomodei aceitando muito menos que eu merecia.

Assim, dou alguns passos no compromisso de que nesse novo ciclo tenho todas as possibilidades de fazer diferente, afinal não só reconheci minha responsabilidade como a confessei para cada um de vocês. Manter nossos compromissos em segredo sempre são uma cilada para mudança. Então se é realmente para me comprometer nada mais justo que contar com ajuda de todos vocês para isso.

Sabrina Presman é psicóloga, mãe de dois filhos, especialista em Psicoterapia Breve. Divide seu tempo entre o cuidado com paciente, a gestão de saúde e desenvolvimento de liderança e educação dos filhos através da Psicologia Positiva. É diretora da Espaço Clif e vice-presidente da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas).

 

 

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