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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

A terapia nos tempos do cólera

O atendimento terapêutico on-line tende a crescer e deve ser uma das heranças na vida pós-pandemia

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 3 jul 2020, 09h05 - Publicado em 2 jul 2020, 09h24

Na hilária série “Diário de um confinado”, que estreou esta semana no Globoplay, Fernanda Torres interpreta a terapeuta do personagem de Bruno Mazzeo (a quem eu tenho o orgulho de chamar de primo). Confinados em casa, a sessão se dá pelo computador, via internet. O paciente, ávido por compartilhar suas angústias, e a terapia sendo interrompida a cada cinco minutos pelo filho e pela mãe da terapeuta e seus vários problemas domésticos. A série põe uma lente de aumento bem humorada sobre uma nova realidade: fazer atendimento psiquiátrico e psicológico nestes tempos de coronavírus.

A mudança brusca de rotina impôs que muitas das nossas atividades cotidianas se adaptassem à uma versão on-line. Foi assim com as reuniões de trabalho e as aulas escolares das crianças. Não havia como ser diferente com os tratamentos psiquiátricos.

O isolamento social, em vigor há mais de 100 dias, mexeu com a estabilidade emocional das pessoas, com aumento de casos de ansiedade e depressão. Algumas, que já estavam em tratamento, não puderam (ou não quiseram) interromper o acompanhamento. Outras, que não estavam sob a supervisão de nenhum profissional quando a pandemia chegou, correram em busca de ajuda psiquiátrica para suportar este que já é um dos maiores traumas da história recente da humanidade.

A terapia online tem suas vantagens. É possível praticá-la com a privacidade, o conforto e a segurança de estar em casa – independente de onde ela seja. Com um vírus solto lá fora, não é pouca coisa. Um segundo fator a ser levado em conta é que há pessoas que estão se consultando com profissionais em diferentes cidades. Quem pode passar a quarentena em sítio, fazenda, casa de campo ou de praia, teve a chance de manter o tratamento com o terapeuta a que está acostumado. Em terceiro lugar, por incrível que pareça, alguns pacientes com dificuldades no contato social afirmam que a distância imposta pela terapia on-line os deixa menos retraídos e, portanto, mais à vontade.

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Já entre as desvantagens, um obstáculo concreto para a terapia à distância é a tecnologia, seja pela eventual falta de intimidade com os recursos dos aparelhos, seja pela instabilidade da conexão. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o uso de internet no Brasil durante a pandemia deu um salto de 50% e sobrecarregou o sistema. Resultado: um festival de delays e telas congeladas, não apenas em sessões de terapia, mas em lives, aulas, conferências ou simples chamadas de vídeo. Como o seguro morreu de velho, preferi me garantir colocando três redes de wi-fi em casa.

A princípio, um empecilho para a realização de terapia online é a perda da comunicabilidade da linguagem corporal do paciente. Mas se a terapia fosse presencial, o uso obrigatório da máscara também traria prejuízo. Com o atendimento on-line, ao menos ganha-se a linguagem facial do paciente, mas tudo se centra, literalmente, no face a face. Desde que comecei a “encontrar” meus pacientes via internet, estabeleci o hábito de comunicá-los sobre as movimentações voluntárias que podem acontecer na sessão: se preciso desviar o olho por alguma razão, se alguém entrar na sala, se faço o gesto de pegar numa caneta ou tomar notas no prontuário. Com isso, não perdemos a conexão. Porque o cerne da questão é justamente este: a conexão interpessoal é tão importante quanto a conexão da internet, neste momento. É a capacidade de empatia que faz uma terapia lograr ou não. E empatia não se mede por metros de distância. Independente de como se dá a comunicação, o acolhimento à dor do outro é o mesmo se o terapeuta consegue se colocar no lugar do paciente.

Por fim, há quem questione o sigilo na terapia on-line. O que posso dizer é que escolher um bom profissional e ter confiança na relação médico-paciente são premissas fundamentais, tanto para o atendimento online, como presencial. Já podemos aferir que, em ambos os casos, a eficácia dos tratamentos é concreta. É isso que importa.

Se antes o atendimento psiquiátrico online era restrito, ele tende a crescer e deve ser uma das heranças na vida pós-pandemia. E fica a dica: não perca a série “Diário de um confinado”. É garantia de boas risadas. E em tempos de isolamento social, rir é valioso.

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Tudo isso que cito na coluna acima será assunto do encontro (online, claro!) “Os desafios do Atendimento Online” que acontecerá no dia 07 de julho, às 19h30, coordenado por mim, moderado pelo psiquiatra Marco Antônio Brasil e com a participação dos psiquiatras Benílton Bezerra e Mário Eduardo Pereira. Mais informações, no Instagram da Espaço Clif (@espacoclif). Esperamos vocês!

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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