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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

“Tá todo mundo louco”?

Crescimento por ajuda de psicólogos e psiquiatras durante a pandemia comprova a importância de se evitar preconceitos contra as doenças mentais

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 11 set 2020, 13h28 - Publicado em 11 set 2020, 11h32

Em sua coluna no jornal “O Globo”, na última segunda, 07 de setembro, o jornalista Ancelmo Gois publicou uma nota com o seguinte texto: “Em tempo de isolamento social, nunca houve tantas consultas aos terapeutas, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. Uma parceira da coluna tentou marcar uma consulta com um medalhão desse ramo e ouviu que só em 2021”.

De fato, os profissionais de saúde mental nunca foram tão requisitados. Não há nenhum colega da área que não diga que está atendendo sem parar. E não é apenas com os “medalhões”, como afirma o jornalista. Mesmo no serviço público há uma demanda crescente por assistência, para pacientes de todas as idades. Isso porque as severas restrições impostas pela pandemia trouxeram uma nova realidade: nivelaram a todos, em diferentes gradações, a sentimentos comuns, como medo, incertezas, desesperança, angústia, irritabilidade, estresse, raiva, frustração e insegurança.

Como era de se esperar, cresceu a procura pelos especialistas em saúde mental, especialmente por atendimento online, uma novidade para todos. É como se agora que passamos pela mesma experiência traumática, estivéssemos autorizados a pedir ajuda, sem incorrer na tolice do preconceito, que ronda a psiquiatria há tantos anos.

A freada compulsória no ritmo do cotidiano fez com que as pessoas repensassem suas vidas, certezas e escolhas e levou à investigação do por quê se passar os dias em marcha tão acelerada. Alguns fizeram descobertas significativas e refizeram o pacto consigo mesmos: não querem mais o emprego, o relacionamento ou o estilo de vida que tinham até aqui.

Mas, para outros o processo é mais doloroso. A incerteza com relação ao futuro pode ser desproporcional e angustiante. Nos últimos meses, observamos um aumento significativo de reações emocionais como depressão, ansiedade, tentativas de suicídio e uso abusivo de álcool e ansiolíticos em decorrência do transtorno de estresse pós-traumático. Levantamento do Conselho Federal de Farmácia apontou um aumento de 14% na venda de antidepressivos durante a pandemia.

Alguns grupos podem ser mais vulneráveis ​​do que outros aos efeitos psicossociais da pandemia. Em particular, as pessoas que contraem a Covid-19 e grupos de risco, como idosos, pessoas com função imunológica comprometida ou portadores de comorbidades. Profissionais de saúde também sucumbem. Trata-se de um grupo particularmente vulnerável ​​a sofrimento emocional na pandemia, dado o alto risco de exposição ao vírus, a preocupação em infectar seus parentes, a escassez de equipamentos de proteção, jornadas de trabalho mais longas, e o peso da pressão de decisões que precisam ser tomadas com agilidade.

Segundo uma grande pesquisa feita nos Estados Unidos pelo National Institute of Mental Health, 40% dos adultos tem ao menos um diagnóstico psiquiátrico e 25% estavam enfrentando algum transtorno no último ano. Portanto, é bastante razoável supor que este percentual só tenha aumentado desde o inicio da pandemia. O trágico é que por trás dos números estão pessoas, vidas, famílias.

Ancelmo Góis dá título à nota com a frase: “Tá todo mundo louco”. Repito aqui um bordão recorrente do próprio jornalista: é pena. Não, não está todo mundo louco. Loucura é outra coisa. Todo mundo está tentando administrar seus sentimentos da melhor forma possível. Alguns não o conseguem sozinhos e precisam de ajuda. Nada mais natural. Rotular que “está todo mundo louco” apenas reforça estigmas e afasta ainda mais pessoas de procurarem auxílio profissional.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química

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