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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Covid 19: qual o tamanho do seu egoísmo?

Da necessidade de sobrevivência à vaidade de não se submeter às regras, comportamento dos cariocas é errático no auge da pandemia

Por Analice Gigliotti Atualizado em 8 mar 2021, 12h06 - Publicado em 8 mar 2021, 10h08

Na semana em que completamos um ano de coronavírus circulando no Brasil, somos instados a voltar ao isolamento social severo. A multiplicação de cepas, a velocidade da transmissão do vírus e o colapso do sistema de saúde em cidades como Porto Alegre, Goiânia e Manaus levou as autoridades às novas determinações em várias cidades do Brasil, incluindo o Rio de Janeiro. O caos apontado por profissionais de saúde virou, enfim, realidade. Restaurantes, bares e comércio com horários restritos, eventos, festas, rodas de samba e casas de espetáculos estão proibidas de funcionar, ambulantes afastados das praias e toque de recolher na madrugada. Tudo isso se apresenta agora, quando a vacina não é mais uma esperança distante e já se tornou real, ao menos para os mais velhos.

Mas parece que o novo chamado ao confinamento encontra mais resistência que o primeiro, mesmo em face à escalada veloz do número de mortos em todos os estados do país. Não vamos abordar aqui os negacionistas. Não é esse o foco da questão neste espaço. Há um vírus devastador no mundo, provado pela ciência. Isso não se discute. Isento também deste debate os ambulantes, os camelôs, os que vivem de pequenos bicos, pessoas desprotegidas da assistência social e que não contam com as vantagens de um emprego com carteira assinada. Estes sentem que já não tem nada a perder: ou morrem de fome ou morrem de vírus.

O que me interessa é entender a resistência justamente daqueles que sabem o poder destrutivo da pandemia. Os que insistem em manter abertas as atividades comerciais não essenciais. Aqueles que tem renda para viver com conforto com ou sem pandemia e, ainda assim, fazem uso seletivo de máscara, que vão às festas, que aglomeram, que levam o vírus para dentro de casa, expondo os mais velhos.

Não estou desmerecendo o cansaço. Depois de 12 meses, estamos todos exaustos. O significativo aumento de pacientes com depressão, ansiedade ou síndrome do pânico atestam esse fato. No entanto, isso não vale – ou não deveria valer – como salvo conduto para que cada um aja como bem entender, olhando apenas para o próprio umbigo.

O isolamento é um pacto social. Só funciona se contar com a adesão de todos. A estratégia foi exitosa em países como Portugal, Inglaterra e China. Quantas vidas teríamos salvo se já tivéssemos aderido anteriormente ao lockdown, como pediam, insistentemente, os profissionais de saúde? Impossível saber. Diante da relutância das cidades em tomarem medida tão radical, afrouxaram os cintos, especialmente no Natal, no Reveillon e no Carnaval – três datas tão próximas e de convívio coletivo por natureza, mesmo com as aglomerações proibidas. Agora chega a fatura amarga: recordes diárias e a falta de alternativas que não o confinamento. Que a trágica experiência que estamos passando traga ao menos o exercício de cada um descobrir o tamanho do seu egoísmo.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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