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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

“Bel para meninas”: quando o bullying vem dos pais

Crianças expostas a situações constrangedoras podem sofrer desde baixa autoestima a tentativa de suicídio

Por Elizabeth Carneiro - Atualizado em 29 jun 2020, 11h45 - Publicado em 29 jun 2020, 09h45

A figura de pais que se utilizam dos filhos para ganhar fama, dinheiro, prestígio não é uma novidade. Judy Garland e Drew Berrymore são apenas dois exemplos de crianças-prodígios que tiveram a infância sacrificada pela ambição dos pais.

Mas talvez o caso mais emblemático seja o inesquecível astro do pop Michael Jackson, que revelava a dor psíquica de uma criança que se desenvolveu e se aperfeiçoou às custas de um pai abusivo físico e emocionalmente. Michael podia estar exausto de tanto ensaiar e demonstrar sofrimento que, ainda assim, o que obtinha eram críticas duras à sua performance, além de surras de cinto.

Seguramente, a interpretação de mundo desses artistas se dava a partir da reafirmação subjetiva de que eles – ou que eles faziam – ainda não era suficiente para dar conta das expectativas de seus pais: os pequenos Michael Jackson, Judy Garland e Drew Berrymore precisavam ser mais, embora já fossem tanto.

Se todo pai costuma ser uma referência para o filho, atender seus anseios faz com que o filho se sinta digno de ser amado, sendo este um dos motivos pelos quais a criança não refuta a lei imposta pelo pai ou mãe.

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Michael Jackson virou um artista incomparável e ao mesmo tempo passou a vida tentando modificar a aparência, porque assim que foi ensinado a funcionar: “nada nunca estava bom o suficiente”. Sua morte, por erro na dosagem do medicamento que usava para “não sentir”, também revelou ao mundo uma vida acompanhada de dor. Ser Michael Jackson nunca foi permitido ao artista Michael Jackson. Esse foi o preço pago pelos abusos vividos. A fama gerou o prazer de realização que o pai queria sentir em sua própria vida mas projetou no filho, que acabou se tornando o Rei do pop e, ao mesmo tempo, um objeto de manipulação do pai.

De quando em quando, este erro se repete com enorme repercussão. Há poucas semanas, a internet se mobilizou em torno do caso da menina Bel, de 13 anos, e virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. No canal “Bel para Meninas”, com mais de 7 milhões de inscritos, a mãe de Bel se dedicava a registrar o dia a dia das filhas sob o lema “crescendo com a Web”. Até aí, a principio, tudo bem. Digo a princípio porque crianças e jovens não tem consciência do valor da privacidade e nem discernimento se fotos e vídeos, captados na intimidade de casa, devem ser eternizados na rede. Esse papel é dos pais.

Mas o caso veio à tona porque a garota começou a ser exposta em situações vexatórias pela mãe, conhecida como Fran. Nos vídeos, a mãe faz a filha lamber uma mistura de leite com bacalhau, comer um sabonete como se fosse picolé, e quebra um ovo na cabeça da menina em “pegadinhas” que não tem graça nem em turma primária, muito menos na relação entre mãe e filha. Fica nítido o prazer esboçado nas gargalhadas da mãe, que certamente só se preocupava com o número de seguidores do canal e as vantagens obtidas pela fama. Além disso, circularam vários vídeos da menina chorando, insegura ou desestabilizada. Enquanto Bel estava sempre “mal na foto”, a mãe se divertia. Uma clara expressão da perversidade e do prazer na maldade.

Foi o suficiente para internautas denunciarem os maus tratos que Bel recebia da mãe. A hashtag #SalvemBelparaMeninas foi lançada no Twitter a ponto de mobilizar o Ministério Público e o Conselho Tutelar. Os vídeos que continham tais cenas foram retirados do ar pelos pais de Bel e o canal foi praticamente desativado. O caso da menina Bel é extremo, na medida em que as humilhações foram provocadas e compartilhadas pelos próprios pais no Youtube, num exercício de narcisismo constrangedor.

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Mas a polêmica é válida para nos fazer pensar na relação estabelecida entre pais e filhos. Não é incomum mães narcisistas competirem com suas filhas mulheres. Como perversas, julgam que quanto mais diminuem a filha, mais seu próprio valor aumenta ou mesmo aniquilam a figura da filha para que só exista a dela. As filhas se sentem culpadas quando expressam suas necessidades diferentes das professadas pelos pais. Afinal, o mundo precisa girar em torno do seu umbigo e “Narciso acha feio o que não é espelho”, como escreveu o poeta.

Em termos psíquicos, a menina Bel é o “Michael Jackson criança” da contemporaneidade. A ampliação da possibilidade de qualquer ser humano se tornar famoso e rico, mesmo sem ter necessariamente qualificação de qualquer espécie para isto, como Michael, Judy e Drew tinham, viabiliza uma nova forma de apresentação do abuso físico e emocional de menores. Pais narcisistas perversos são um prato cheio para se utilizarem da vitrine social tão facilitada.

Crianças frequentemente expostas a humilhações ou constrangimentos desencadeiam transtornos psiquiátricos, desde baixa autoestima a ansiedade, depressão, automutilação e até suicídio. Que utilizemos o Caso Bel para ficarmos mais atentos e denunciarmos essa forma sutil de abuso travestida de entretenimento. Certamente precisamos encontrar as prováveis inúmeras “Bel” espalhadas na internet, vítimas do pior uso da tecnologia.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

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