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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Pitt, Affleck e Bieber: por que alguns artistas recorrem às drogas?

A carreira artística esconde uma armadilha cruel: é a única em que é possível estar afundado nas drogas e ascender na profissão

Por Analice Gigliotti - 3 mar 2020, 13h04

Foi em janeiro, durante a temporada de entrega de prêmios do cinema americano. O ator Brad Pitt subiu ao palco para receber, das mãos do colega Bradley Cooper, a estatueta de melhor ator coadjuvante pelo seu trabalho em “Era uma vez em Hollywood”. Pitt surpreendeu a todos com seu discurso: “Consegui me manter sóbrio por causa desse cara. Desde então, cada dia é melhor do que o outro. Eu te amo. Muito obrigado”, revelou, sob aplausos, ao lado do amigo Cooper, ele mesmo com problemas de dependência e abstinente de drogas e álcool desde os 29 anos.

Em recente entrevista ao jornal “The New York Times”, o ator Ben Affleck também falou sobre a dificuldade em se manter sóbrio. “Pessoas com comportamento compulsivo, e eu sou assim, sentem um desconforto básico que estão sempre tentando superar. Você tenta se sentir melhor comendo, bebendo, fazendo sexo, apostando, fazendo compras ou o que for. Mas isso acaba piorando a sua vida. Aí vai mais fundo nas obsessões para que esse desconforto vá embora. Então a dor começa de verdade. Vira um ciclo vicioso”, resumiu o ator.

Não é de hoje que artistas tem uma relação intensa com álcool e drogas. O filme “Judy”, ainda em cartaz, mostra a dependência de remédios e bebida com que Judy Garland lutou desde criança. A eterna Dorothy de “O Mágico de Oz” não teve à época um Bradley Cooper que estendesse a mão e a salvasse: morreu precocemente, aos 47 anos.

O comportamento não é diferente entre as novas gerações. Justin Bieber, um veterano aos 25 anos, acaba de lançar um documentário no Youtube em que revela sua experiência. “Decidi parar com álcool e drogas porque eu estava morrendo. Meus seguranças e a equipe iam ao meu quarto de noite checar meu pulso”, relembra. Noah Centineo, ídolo dos jovens que atuou em “Para todos os garotos que já amei”, declarou ter sido viciado dos 17 aos 21 anos. “Não havia drogas que eu não usasse. Fumei muitas coisas. Eu estava muito triste, foi uma época sombria da minha vida”, recorda o ator, hoje com 23 anos. Ao mesmo tempo que essas declarações chocam, também podem ajudar a esclarecer aos jovens os riscos que o uso dessas substâncias acarretam.

Não só tenho alguns artistas na família, como sou amiga de muitos outros. Álcool e drogas absolutamente não são fundamentais para que uma obra de arte seja produzida. Mas a carreira artística esconde uma armadilha cruel: é a única em que é possível estar afundado nas drogas e, ainda assim, ascender na profissão. Foi assim com Amy Winehouse, Billie Holliday, Kurt Cobain, Nina Simone, Tim Maia, Elis Regina, só para citar alguns gênios. Dificilmente, o mesmo seria possível para um advogado, um engenheiro ou um médico.

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A arte é uma área de atuação tão séria e profissional quanto qualquer outra, mas onde uso de droga é mais tolerado – e até incentivado – como artifício para potencializar a criatividade. Há artistas que, de fato, usam a maconha para aumentar a percepção e a sensibilidade, mas o uso contínuo leva à tolerância, o que pode acabar por piorar o resultado final na produtividade. O Centro de Estudo de Pesquisa Translacional em Adições da Universidade de Washington também revela um outro olhar: ele mostrou que, comparando usuários de maconha sóbrios a não usuários, os primeiros mostraram-se naturalmente mais criativos que os demais.

E o que a fama tem a ver com o uso de drogas? A relação que estabeleço é que, infelizmente, falam-se mais dos famosos quando eles estão afundados na dependência.

Se há um lado positivo nisso, é que se criou uma “cultura da recuperação”. Brad Pitt, Bradley Cooper, Ben Affleck, Justin Bieber, Joaquim Phoenix, todos fizeram questão de expor suas fraquezas e divulgar que é possível dar a volta por cima: pessoas famosas também erram e se recuperam. Em um mundo que sobrevaloriza as celebridades, é uma ótima mensagem saber que famosos também são falíveis.

Como aponta Ben Affleck em seu depoimento, a busca pela fama é também a busca por aplauso, um reconhecimento que atua como uma compensação a um sentimento de falta, de insuficiência. Curiosamente, muitas vezes, os artistas escolhem essa profissão porque se sentem inferiorizados e o aplauso age sobre essa carência. Em alguns casos, a vulnerabilidade os leva a recorrem ao álcool e as drogas para não entrarem em contato com esse tipo de sentimento de inferioridade.

O autor Manoel Carlos disse, em entrevista, que todas as suas novelas tem um personagem alcoólatra e a razão é muito simples: “Porque toda família tem algum caso de dependente de álcool”, explica. Não são só os artistas famosos que tem direito a reabilitação de qualidade. Na Santa Casa do Rio já tivemos a sorte de ajudar algumas centenas de famílias como as que aponta o novelista. São histórias emocionantes de superação. O Ambulatório tem preços populares, já atendeu mais de 3 mil pessoas em 24 anos. Há vagas em aberto para tratamento constantemente. Se você conhecer alguém que precise de ajuda, basta ligar para 2533-0118 ou 2524-8872.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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