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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

À flor da pele

A pandemia dá exemplos de união, mas também escancara o pior do ser humano

Por Analice Gigliotti - Atualizado em 5 jun 2020, 10h41 - Publicado em 5 jun 2020, 10h20

O coronavirus chegou sem escolher como alvo uma nacionalidade ou camada social, correndo como um rastilho de polvora no mundo globalizado e atingindo a todos, indistintamente. Esse momento único que o mundo está atravessando tem nos rendido exemplos diários de emocionante generosidade, que nos enchem de esperança. Mas é inegável também que parece ter deixado à mostra o pior do ser humano.

Na televisão ou nas redes sociais, temos assistido a frequentes histórias de violência e agressividade. O morador de Alphaville que destratou um policial, a médica que apanhou dos vizinhos no Grajaú, o deputado que ameaça oposicionistas à bala. Parece que a pandemia pontencializou ainda mais um traço tão marcante da nossa sociedade: a brutalidade. O mais grave é que, algumas vezes, estas questões são permeadas por diferenças políticas em uma sociedade rachada por ideologias ou, o que é pior, pelo ódio. É como se o brasileiro tivesse perdido a capacidade – se é que um dia a teve – de resolver as diferenças de modo civilizado, na base da argumentação. Ficamos reféns de um cansativo “nós contra eles” que nos impede de progredir nas causas certas – educação e saúde, por exemplo – e só favorece aos que tiram vantagem política do ambiente arrivista.

Nossa história nunca foi pacífica, ao contrário do que os livros de História tentaram nos convencer por décadas. Os portugueses invadiram e dizimaram os indígenas, traficaram e escravizaram negros que, quando conquistaram a liberdade, não tiveram nenhum apoio do Estado para começarem uma nova vida. Ao contrario, os indenizados – pasmem! – foram os ex-proprietários de escravos. A fundação do nosso tecido social é na violência e desigualdade.

Brasil e Estados Unidos são muito diferentes, mas comungam de traços históricos semelhantes. Ambos foram colonizados e escravizaram negros. Ambos tem, atualmente, politicos assumidamente de direita no poder. Mas vejamos o exemplo que o povo americano – inclusive os brancos – tem dado ao mundo em busca de justiça pelo assassinato cruel do negro George Floyd, por parte de um policial branco. Não se vê mobilização igual desde os anos 1960.

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Quando requisitado pelas autoridades, o isolamento social no Brasil foi adotado por até 70% da população em algumas cidades. A pandemia mostrou a capacidade de mobilização do brasileiro. Pois que ela permaneça quando a Covid-19 estiver vencida e nos inspire no exercício de empatia às dores e causas alheias para nosso progresso como sociedade.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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