Vingança

Leia na crônica de Manoel Carlos

Eu gostei tanto, tanto
quando me contaram que lhe encontraram
bebendo e chorando na mesa de um bar…
E que, quando os amigos do peito
por mim perguntaram,
um soluço cortou sua voz,
não lhe deixou falar.

Esses versos de um samba bem popular dizem tudo. O desejo de vingança está entre os maiores sentimentos humanos. Principalmente a vingança derivada de amor contrariado e traído. Ainda uma fagulha de um muito provável incêndio que, se não for logo contido, pode acabar mergulhado em sangue e morte.

Muito apropriadamente o samba carrega o nome de Vingança, e seu autor, Lupicínio Rodrigues, foi o incontestável mestre do mal-es­tar do amor. Tão poderoso o seu veneno que acabou fundando um gênero musical: o samba de dor de cotovelo, também conhecido, com mais humor e criatividade, como o fino da fossa, em contrapartida ao fino da bossa.

Seguindo as palavras do mestre, é ele próprio quem faz o diagnóstico de seu imenso e incontrolável ódio:

O remorso talvez seja a causa
do seu desespero.
Ela deve estar bem consciente
do que praticou.
Ela há de rolar como as pedras
que rolam na estrada
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Ao chegar aqui, somos levados a pensar que finalmente surgirá o perdão no coração do amante ofendido, mas não. Ele ainda fustiga a amante com uma maldição:

Mas enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada
só vingança, vingança, vingança…

E por aí vai até o final. Não sei se ainda é habitual a acusação que é também uma advertência: rogar praga. Eu me lembro de que era comum ouvir dos adultos, comentando uma infelicidade amorosa que não consegue desgarrar-se de um coração apaixonado:

— Isso é praga que rogaram.

E entre os tais adultos havia sempre quem atenuasse:

— Bobagem. Deus é misericórdia.

E minha mãe, fechando o tema da conversa:

— Pense sempre que para cada pessoa que lhe quer mal hão de estar com você, ao seu lado, pessoas que lhe querem bem. Deus não permite que seus filhos sejam derrotados pelo mal.

E, sem acreditar totalmente nesse rasgo de bondade de minha mãe, acabava-se o assunto, e todos se sentavam à mesa para o lanche de todos os domingos, a família reunida… e a fé entre nós.

Num remoto domingo que jamais esquecerei, falamos à mesa do lanche da investida do mal sobre o indefeso coração humano. Tio Nelson, que era o erudito da família, citou de memória: “Não existe o bom ou o mau. É o pensamento que os faz assim”. Todos ficaram admirados com a força dessa citação.

— Onde é que você leu isso?

— Por aí. Num almanaque qualquer.

Todos riram da modesta declaração.

— E a vingança? Não era sobre isso que a gente falava?

Mas ninguém ouviu nem se manifestou. Afinal, o pudim de baunilha estava bom demais. Naquela mesma noite, tio Nelson morreu. Anos depois, num dicionário, encontrei a citação e o seu autor: Shakespeare, segundo ato de Hamlet.

Valeu, tio!

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