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Manoel Carlos Por Blog Blog do novelista Manoel Carlos

Divagações

Leia na crônica de Manoel Carlos

Por Manoel Carlos - 9 out 2017, 00h00

Em 1943, eu tinha 10 anos e me preparava para ingressar no internato dos padres espanhóis, onde ficaria até 1948, sem tornozeleira eletrônica, já que o produto ainda não existia para adolescentes insubordinados como eu.

A guerra era uma presença na vida de cada pessoa, inclusive crianças, mesmo sem notícias muito precisas do seu desenrolar. Afinal, ainda não dispúnhamos das fontes de informações que foram aparecendo no correr do tempo. Era tudo na base da notícia que precisava de confirmação no rádio, nos jornais da tela e nas edições extras que os jornaleiros anunciavam pelas ruas do centro da cidade e que meu pai trazia para ler em voz alta depois do jantar. Mas luxo mesmo era ter nas mãos a revista Em Guarda, com os mortos nas frentes de batalha, penteados, elegantemente desarrumados, prontos a entrar em cena, ao lado de Clark Gable beijando Vivian Leigh, entre muitas outras imagens.

Brincávamos de Batalha Naval, um joguinho que, cinquenta anos depois, eu cheguei a disputar com os meus filhos, e que hoje ainda pode ser encontrado nas papelarias. A guerra, portanto, era um evento popular. Passávamos por simulações de ataque aéreo, com direito a blecaute, sirene de alarme, panos pretos cobrindo a luz dos interiores domésticos etc. Tudo direitinho, como nos filmes americanos que não perdíamos nas matinês do cinema Rialto. Como era muito metido, eu me escondia pela casa a fim de escutar o que os adultos falavam quando juntos, longe da nossa presença. E assim, por via indiscreta, fiquei sabendo da luta armada, ainda que não acompanhasse o desenvolvimento dos fatos. À época, as crianças eram as últimas a saber de qualquer coisa. Quando nos aproximávamos, os adultos trocavam olhares e usavam de uma espécie de código para entendimento privado.

— Cuidado, que tem gente de pés descalços — diziam.

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E justificavam precariamente:

— Assunto de gente grande. Saiam e fechem a porta.

E saíamos então, o rabo entre as pernas, literalmente. Nós, gente miúda, desdenhávamos a guerra, suas notícias e relevância para o mundo. Andávamos, isto sim, à procura de pernas nuas, bustos volumosos, bocas rubras, sorrisos maliciosos. Betty Grable era o nosso sonho de consumo.

Eu tinha uma namoradinha, como todo garoto da minha idade. Normalista, como era também comum, já que o bairro onde morávamos abrigava uma concorrida escola normal. Afinal, ser professora de crianças era uma aspiração natural, incentivada pela família e valorizada socialmente. Minha mãe dizia que, para falar que uma moça era professora, enchia-se a boca e se pronunciavam com respeito as quatro sílabas: pro-fes-so-ra. Minha mãe pertencia a esse seleto grupo de cidadãos úteis à comunidade. E corrigia quem a nomeasse como ex:

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— Ex, não. Professora não deixa nunca o ofício. Não é uma profissão, mas um apostolado.

Eu estufava o peito, cheio de orgulho, e gritava para mim mesmo, os olhos marejados:

— Viva minha mãe!

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