Bodas de prata

Minha mãe amava a valsa Bodas de Prata e não deixava de se lembrar, até seu último ano de vida, da letra completa. E quando a ouvíamos cantarolar, a voz que soava era a do cantor Carlos Galhardo, muito justamente denominado “o rei da valsa”. Cantava ele: Vinte e cinco anos vamos festejar de união […]

Leo Martins

Minha mãe amava a valsa Bodas de Prata e não deixava de se lembrar, até seu último ano de vida, da letra completa. E quando a ouvíamos cantarolar, a voz que soava era a do cantor Carlos Galhardo, muito justamente denominado “o rei da valsa”. Cantava ele:

Vinte e cinco anos vamos festejar de união
E a felicidade continua em meu coração
Vai crescendo sempre mais o meu amor por ti
Eu também fiquei mais velho e quase não senti

Vinte e cinco anos de veneração e prazer
Pois até nos momentos de dor
O teu coração me faz compreender
Que a vida é bem pequena para tanto amor

Era uma época em que os artistas populares — astros e estrelas de primeira grandeza — eram batizados com cognomes, muitas vezes escolhidos por uma comissão formada pelo público de auditório. Orlando Silva era “o cantor das multidões”, Silvio Caldas, “o caboclinho querido”, Carmem Miranda, “a pequena notável”. Tudo isso num clima muito carinhoso.

Lá em casa, a lembrança de Bodas de Prata durou até minha mãe morrer, depois de ter comemorado bodas de ouro, com cinquenta anos de casamento, e mesmo de diamante, com sessenta anos. O tempo já não tinha tanta importância. O que valia era lembrar, cercada de filhos e, mais tarde, de netos, dessa época em que a vida era um abençoado prêmio.

Por que estou lembrando — mais uma vez! — de mãe, casamento, filhos, família? A resposta é fácil: a Vejinha, esta revista que me acolhe e me dá espaço de quinze em quinze dias, promovendo esse feliz encontro entre nós, está comemorando 25 anos de vida, festejando, assim, suas bodas de prata com todos os seus leitores. E, como palavra puxa palavra, é também verdade que lembrança puxa lembrança.

Quanto a mim, estou aqui, recebendo o carinho de vocês, há doze anos. Foram, com esta, 317 crônicas, mais ou menos 700 páginas escritas. Talvez impressionado por essa recordação é que fiquei observando, durante a premiação na Olimpíada, que a medalha de prata é festejada com o mesmo fervor que a de ouro. Não apenas pelos atletas, mas pelo público. Sinto que, em algum momento da vida, ficamos mais felizes com menos visibilidade. Minha mãe era assim. Concordava com Fernando Pessoa: “Na vida aquece ser pequeno”.

Mais de uma vez perguntamos a ela:

— Por que marcou tanto a sua vida lembrar das bodas de prata?

Mas minha mãe nunca respondeu.

São doze anos! Não deixa de ser um longo convívio, se considerarmos que mesmo o amor entre dois seres humanos, nos dias de hoje, não se apresenta tão duradouro e fiel. Desejo que essa união festeje o ouro e o diamante com a mesma alegria e fulgor da prata e do bronze. O que vale é estarmos todos juntos e cultivarmos o amor.

Obrigado pela acolhida de tantos anos.

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