Bazar

Leia na crônica de Manoel Carlos

Ninguém sai de um bazar de mãos vazias. Você pode não encontrar o que está procurando, mas alguma outra coisa — qualquer uma! — não procurada, nem mesmo desejada, há de surgir à sua frente, diante dos seus olhos. Meus filhos ficavam malucos! Eu falava:

— Cada um escolhe um brinquedinho, um só. Não vale bola, que temos uma dúzia lá em casa! — Eles corriam de um lado para o outro, sem saber o que levar. Dava gosto ver!

Raul entrou na conversa:

— Uma vez minha mulher saiu para ir ao mercado em busca de um frasco de azeite grego e voltou com um par de sandálias Birkenstock, de fabricação alemã.

— Posso abrir outra garrafa?

Era a garçonete. Estávamos no Café Severino, vindo de uma missa de sétimo dia em memória do Zé Antonio.

— Afinal, de que ele morreu?

O Afonso fez aquele gesto universalmente conhecido, que indica o alcoolismo como causa da morte.

— Ih, essa é uma história longa e dolorosa — comentou alguém.

Carla largou o celular em cima da mesa.

— Como se come bem naquela cidade!

— Que cidade?

— São Paulo, pô.

— De que você está falando?

— Eu falava das cantinas paulistanas.

— Do bazar!

— Do bazar, mas depois das cantinas do Bixiga! Uma melhor que a outra!

— E o pão com linguiça?

— De comer rezando!

E outros assuntos entraram e saíram da roda, numa aparente desordem.

— Pensei que ele não bebesse mais, que tivesse parado.

Parava uma vez por ano, na noite de Natal, quando se vestia de Papai Noel.

— Caramba, não me lembrava disso!

— Uma vez quase morreu, quando caiu dentro da caixa-d’água na casa da Nairzinha.

— Será que eu estou com Alzheimer? Não me lembro de nada! Quem era a Nairzinha? Aquela loirinha que namorava toda a turma?

— Aquela era a Sandrinha.

— Uma gostosura!

— Já morreu também.

— Ah, hora da saudade não vale.

— Alzheimer não aparece assim, de uma hora para outra.

— Aparece, sim. Com meu avô foi assim. Num dia estava legal, levantou-se da mesa enquanto a família estava almoçando na casa dele… Foi ao banheiro, voltou para a mesa e pronto. Já nem lembrava qual era o nome da minha avó.

Abrimos uma segunda garrafa de vinho no momento em que uma garçonete colocava na mesa mais pão e mais queijo.

Ríamos, estávamos felizes, alegres. Era a vitória da saúde sobre a morte.

— Enterramos mais um da turma!

O inverno ensolarado se abria sobre nós. Uma pausa para a reflexão, e Raul comentou, num tom sentimental e penoso:

— Não gosto de estar bebendo e me divertindo com o nosso amigo morto e enterrado.

— Cremado — falou Afonso.

E deu uma fungada, levando o lenço ao rosto e enxugando uma lágrima.

— De que é que estávamos falando?

— De bazar. De como gostamos de quinquilharias.

— Dá para mudar de assunto?

— Claro, é pra já.

E olhando todos à volta:

— E o Neymar, hein?

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