Antes do café

  Manhã chuvosa, céu branco, vontade de não sair da cama. Por mais que se espreguice, a preguiça está ali, no corpo todo, colada como a própria pele. Sabemos que isso vai passar, mas enquanto não passa há que ser paciente e aceitar o torpor quase invencível. Esse ensaio involuntário que pode ser fatal. Já fui […]

leo martins

 

Manhã chuvosa, céu branco, vontade de não sair da cama. Por mais que se espreguice, a preguiça está ali, no corpo todo, colada como a própria pele. Sabemos que isso vai passar, mas enquanto não passa há que ser paciente e aceitar o torpor quase invencível. Esse ensaio involuntário que pode ser fatal.

Já fui de saltar da cama assim que abria os olhos. Como também já fui de subir e descer escadas de dois em dois degraus. Mas isso é passado. Se tentar reviver agora essa prova de atletismo, corro o risco de quebrar as duas pernas. Além de oferecer uma cena risível.

Antes do café, o primeiro café do dia, passo os olhos na correspondência que me foi endereçada: indagações sobre novelas, dramaturgia, elencos. Querem uma receita, como de um bolo. Por que não? Afinal, criar personagens, entrecruzá-las nas histórias inventadas, alisando a seda do passado, a maciez dos dias em que fomos felizes, mas não jogando no lixo e no esquecimento os momentos ásperos que vivemos, pois tudo vale a pena. Isso mesmo! A senha é esta: pensar e agir sabendo que tudo vale a pena. Que tudo pode ser usado. A vida está aí se oferecendo. Que cada um pegue uma fatia e se lambuze. Mas não se esqueça: é preciso amar o passado para poder reinventá-lo como ficção todos os dias. E sem trauma, acrescente-se. Desde a criação das personagens, o nome que damos a cada uma, o som de sua voz, o ruído. É como eu tento fazer nas crônicas nesta Vejinha e nas cenas das minhas novelas.

Nunca consegui concordar com pessoas que dizem que é melhor esquecer os momentos difíceis. Não, claro que não. Tudo nos pertence. Quero beber a taça até a última gota!

Esfregue-se no que viveu. E de vez em quando vire o conteúdo de uma velha gaveta no chão. E inicie a pilhagem em parte do seu passado: versos, fotos, guardanapos de papel, rolhas de garrafas de champanhe, e chaves (de onde será esta? E por que a guardei?). Certamente porque contava voltar a usá-la, voltar a abrir essa misteriosa porta que deve abrigar um velho segredo. Um amor que se foi para sempre? Quem sabe? Mas pode-se esquecer de algum amor vivido?

Façam isso, enquanto esperam o primeiro café num dia que parece ser igual aos outros, mas que não é. Não é porque você vai passar as próximas horas ou dias inteiros — ou tudo o que ainda lhe resta de vida a ser vivida — procurando lembrar onde está a fechadura em que se encaixe a chave encontrada.

Vamos, coragem, vire a gaveta no chão e deixe que se espalhe tudo o que ali está há tanto tempo sem receber a visita dos seus olhos. Com esse gesto de pirataria, pode-se descobrir mais do que fomos, do que somos, mais do que poderíamos contar num confessionário ou diante de um psicanalista.

Tudo isso antes do café.

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