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Luisa Mascarenhas Por Luisa Mascarenhas, psicóloga e escritora Autora do livro 'A Vida Virtual Como Ela é'

A rejeição nossa de cada dia. Quem se importa?

Quando a gente percebe que não faz sentido focar no espectador bocejando na plateia - e sim no resto todo que está aplaudindo

Por Luisa Mascarenhas Atualizado em 30 jan 2021, 04h15 - Publicado em 29 jan 2021, 19h34

Aí você já estava achando seu namorado meio chato, complicado demais, egoísta, perdido na vida, já não o admirava mais, achava impossível visualizar vocês juntos a longo prazo, já revirava os olhos quando ele estava com cara de maus amigos por pequenas bobagens, já falava com sua analista que queria terminar, mas estava esperando o melhor timing. Eis que ele termina o namoro antes de você tomar a atitude ou que você descobre uma traição e… Pronto! Fim do mundo. Praticamente seu chão se abre e você não sabe como vai sobreviver e superar um cara que era um namorado meia boca, com prazo de validade, e já não te fazia feliz faz tempo. Mas, veja bem, ele te traiu ou ele te rejeitou. E agora ele passou a definir, subitamente, seu valor, ou melhor, a falta dele. Ele, que até ontem você estava achando muito pouco para você, ganhou uma dimensão gigantesca e sua autoestima sofreu um abalo sísmico.

Aí você que está pensando em como poderia fazer para remarcar para outro dia o encontro com o cara que você está saindo, porque está doida para ter uma noite sozinha de descanso, em paz na sua casa, assistindo e lendo o que você bem entender, sem ter que dar atenção para ninguém, recebe uma mensagem ou ligação do seu “ficante” dizendo que hoje não vai conseguir te ver. Diz que está exausto e ainda precisa finalizar um projeto e pede para vocês marcarem outro dia. Ao invés de sorrir aliviada por ele ter desmarcado milagrosamente logo quando você queria tanto estar só, você agora se sente solitária e rejeitada em sua sexta-feira. Seu sonho era uma noite sozinha, não uma noite se sentindo sozinha. Você terá sua maravilhosa companhia, seu maravilhoso sossego e sua maravilhosa liberdade, mas agora ficou meio chocha. Está focada no cara e nas razões dele não te ver, pensando se ele falou mesmo a verdade e o que essa desistência significa.

Aí você postou umas fotos legais nos stories do Instagram e muita gente comentou e visualizou. Praticamente todos os “amigos” acumulados ao longo de muitas solteirices, vários ótimos, visualizaram e alguns comentaram. Um dos caras que você tem visto ocasionalmente, contudo, não apareceu na lista, e já não tinha visto os stories anteriores, sendo que antes estava sempre ali. Ele não é importante na sua vida, é um cara bacana que você saiu duas vezes só. Gente fina, química legal, mas, sejamos realistas, não tem peso nenhum em sua existência. Mas você começa a pensar nele, no único ausente. Fica tentando adivinhar o que pode ter levado o cara a não se interessar mais pelo que você posta. Logo ele que antes comentava tudo com emojis divertidos e sedutores, agora te “abandonou” virtualmente sem qualquer explicação. Ó, céus.

Aí você vai procurar o nome de uma amiga em suas conversas de WhatsApp e acaba descobrindo que um cara com quem você ficou há um tempo (com a  mesma inicial que ela) te bloqueou do nada, e você, que não estava nem mais lembrando dele, começa a ficar ansiosa e incomodada pensando o porquê daquilo, o que você fez que o desagradou, e quando vê já está desestabilizada e se perguntando porque nada dá certo em sua vida amorosa… Estava tudo bem até você perceber que ele, de quem você mal se lembrava, não tinha mais foto no perfil do WhatsApp, e em sua última resposta a ele, não havia os dois tracinhos cinzas. Subitamente, você começa a sentir uma certa ansiedade e bate uma insegurança sobre seu valor, quando o cara não passava de um figurante ou de alguém que fez uma “ponta” na temporada anterior da sua vida.

Isso tudo para dizer que, assim como muitos atores relatam ficar absolutamente fixados em tentar agradar especificamente aquele espectador que está parecendo achar a peça chata (dormindo, com cara de mau humor, bocejando, ou mostrando desdém de alguma outra maneira), enquanto todo o resto parece estar amando, a gente tende a dar muito valor, ou peso, a quem não nos quis, não nos curtiu, não visualizou, não compareceu, não deu parabéns, não foi fiel, não esteve ao nosso lado. Focamos em quem nos decepcionou, traiu, abandonou, desprezou, criticou, rejeitou, ao invés de olhar de forma mais ampla e ver que quase todo mundo que a gente gosta nos valoriza, nos prestigia, nos apoia, nos admira, nos faz sentir queridos e amados. E que, se não fazem em algum momento, logo procuram se fazer presentes de alguma forma, deixando claro que fazemos diferença.

O medo da rejeição e a expectativa de que ela se repita acaba com a nossa tranquilidade e com o olhar mais relaxado sobre as pessoas que entram em nossas vidas. Não, nem todo mundo decepciona, nem todo mundo trai, nem todo mundo some, nem todo mundo rejeita, nem todo mundo abandona. A grande maioria das pessoas importantes para você estão aí bem ao seu lado. E vivem dando alegria e te acolhendo.

Eu tenho um grupo de amigas em que um áudio fez história. Foi enviado pelo porteiro do Breno (vamos chamá-lo assim), ex namorado de uma delas, que havia terminado o namoro e já estava com outra. O porteiro, com quem minha amiga sempre batia papo e era simpática, claramente encantado por ela, e sendo uma figuraça com um sotaque sensacional, pergunta como foi o Carnaval dela, fala que está com saudade e, entre outras coisas, como dizer que ela é linda, completa: “Quem é que não se apaixona por uma pessoas dessas? Só Seu Breno, né”. Ele diz isso e dá uma risadinha engraçada. O áudio foi um sucesso no grupo. Não apenas pelo jeito hilário dele, mas por uma razão óbvia. O porteiro enche a bola dela, mas fala o que na época era claramente a grande questão. “Seu Breno” era o único que não se apaixonava por ela, e era quem ela queria.

De fato, o porteiro tem toda razão. Essa minha amiga é apaixonante mesmo. Carismática, linda, divertida, muito querida por todos. Então dane-se o Seu Breno (e todos os similares). O porteiro dele mandou o melhor áudio que já ouvimos e ajudou a transformar a dor dela em algo cômico, inclusive para ela. Nada como o humor para a gente dar risada de um sentimento de rejeição que, se ainda não passou, em breve vai passar. Vamos focar no que importa e em quem se importa, e buscar esvaziar aos poucos o “bocejo” de um espectador, olhando mais atentamente para o resto da plateia, que está se emocionando, rindo e aplaudindo.

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