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Luciana Brafman Por Luciana Brafman, jornalista e professora da PUC-Rio Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

Na pandemia, o olhar econômico de um youtuber mirim

Aos 11 anos, carioca Beny Fuks - que entrevista economistas - entende a gravidade da crise, defende a importância de poupar e incentiva empreendedorismo

Por Luciana Brafman - Atualizado em 10 jun 2020, 10h50 - Publicado em 10 jun 2020, 08h12

Quando eu tinha uns 7 anos, meus pais já me deixavam ir sozinha até a banca de jornais da esquina comprar revistinhas em quadrinhos. Só que o dinheiro que eu levava na minha pequena bolsa a tiracolo era, muitas vezes, insuficiente, pois os preços em cruzeiros subiam todos os dias. Em uma ocasião, perguntei ao jornaleiro por que ele não podia, simplesmente, vender pelo mesmo preço da semana anterior. Percebi um sorriso irônico com a explicação impaciente de que ele recebia os gibis com o novo preço, apenas repassando a alta. Apressadamente, eu concluí: “Então, se ninguém aumentar nada, não tem inflação”. Elementar…

Um dos marcos da minha infância foi a hiperinflação – que minhas filhas, graças a Deus, têm dificuldades em entender. As crianças de hoje, no entanto, terão outro fardo. A infância está sendo marcada pelos impactos da pandemia e do isolamento social. Na lembrança econômica, ficarão registradas histórias de desemprego, redução de salários, home office, filas do auxílio emergencial, fechamento de pequenos comércios etc. Esta geração de meninos e meninas vai pagar a conta lá na frente, mas são eles também que vão pensar em uma solução fora da caixa e construir uma sociedade melhor.

Em busca da “pureza das respostas das crianças”, conversei com o youtuber Beny Fuks, um carioca simpático de 11 anos, que já entrevistou empresários, executivos e mestres da economia em seu canal MoneySide, criado há cerca de dois meses. As perguntas são pertinentes, e os entrevistados correspondem. Na lista, só para citar alguns nomes, estão o CEO do Grupo Abril, Fábio Carvalho; o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga; um dos pais do Plano Real, Pérsio Arida; e o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy.

Beny entrevistou Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real: “Por que antigamente tinha nota de 500 mil?” Reprodução/Veja Rio

Numa escala de 1 a 10, Beny acredita que nossa economia foi impactada no nível 8. “É uma crise gigante”. Aluno de escola particular, ele sabe que nem todos têm uma condição social similar à sua. Por isso, é favorável ao auxílio emergencial, acha que o governo deve ajudar, sim, a quem precisa neste momento. Mas faz uma ressalva de gente grande: “Não acho justo que algumas pessoas se aproveitem para receber o dinheiro, sem merecer”.

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Para aqueles que não são vulneráveis socialmente, mas mesmo assim já sentem ou vão sentir o impacto da crise, Beny dá uma dica valiosa: “Quem puder, quem conseguir é claro, deve guardar sempre um pouquinho de dinheiro, economizar, porque isso é muito importante. Se você economizava antes, não está agora em tão má situação”. O empreendedorismo, que parece fazer parte do DNA desta geração, também se manifesta. “A quarentena pode ser uma oportunidade de ganhar dinheiro de outra maneira: online. Tem muita coisa legal na internet, jeitos legais de ganhar um dinheiro extra. Tem que ter curiosidade e correr atrás”.

Beny conta que economiza parte da semanada que recebe e faz até investimentos quando junta uma soma maior. “Não faz sentido deixar dinheiro guardado na carteira”. Disciplinado, criou uma rotina na quarentena: acorda um pouco mais cedo do que o necessário “para dar uma olhadinha no celular”; depois faz as tarefas da escola “para ficar livre”. Na sequência, exercita-se dentro de casa. “Gosto de ficar ativo”. Na parte da tarde, ele toca as entrevistas para o canal – que tem a supervisão do pai, Daniel Fuks. Com os amigos, tem falado frequentemente pelo WhatsApp ou pelo grupo de email da própria escola.

Perguntado qual a primeira coisa que fará quando o isolamento social acabar, ele não vacila. “Tudo o que for possível. Ver as minhas avós – estou com muitas saudades delas – meu amigos, brincar durante oito horas seguidas no clube, jogar bola e ir ao Maracanã”, planeja o craque da escola de futebol do PSG, torcedor do Flamengo, que já entrevistou até o ídolo Zico em seu canal.

Embora passe parte do tempo livre da quarentena respirando Economia, Beny não sabe se quer ser um economista. “Sou muito novo para decidir”. Apesar da gravidade do cenário atual, ele acredita que a crise é passageira e não deixa de sonhar. “Amo jogar futebol. Quero ser jogador profissional, me aposentar com uns 40 anos e, depois, aproveitar meu conhecimento de economia para fazer alguma outra coisa”.

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Beny pode até não se formar em Economia, mas sua história e seu olhar – assim como os de muitos brasileirinhos por aí – podem nos ensinar e nos motivar. Nunca é cedo demais nem tarde demais para entender a importância de poupar e a força do empreendedorismo; exercitar a consciência social; manter o foco no aprendizado; cultivar a disciplina e, mais que tudo, buscar sempre os nossos sonhos.

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