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Luciana Brafman Por Luciana Brafman, jornalista e professora da PUC-Rio Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

Um passaporte para 2021

Em cenário econômico incerto, é preciso evitar dívidas desnecessárias e juros ao redor de 300% ao ano

Por Luciana Brafman 29 dez 2020, 19h51

Postado em novembro pela Rádio Novelo, um vídeo de 1975 sobre o cartão de crédito Passaporte me chamou a atenção ao aportar dias atrás no meu whatsapp em mais de um grupo, simultaneamente. É no mínimo curioso assistir a uma publicidade daquela época com uma dúzia de celebridades e formadores de opinião – entre os quais Ângela Diniz – tentando convencer o público sobre as vantagens de se ter um cartão de crédito. Hoje, com as carteiras digitais e a popularização do crédito, o anúncio parece mais um episódio de Stranger Things ao contrário.

O Passaporte é o meu gancho para escrever aqui sobre juros do cartão de crédito e a importância de se começar 2021 sem dívidas desnecessárias (será meu gancho também para um assunto ainda mais relevante, caso você chegue ao fim deste texto). No pouco consenso existente entre os economistas, permanece forte o mantra de que 2021 não será um ano fácil no Brasil. Depois da pedreira de 2020, espera-se uma recuperação, claro, mas a velocidade do crescimento e do emprego é, mais do que sempre, uma incógnita. Além das vacinas, temos outros calcanhares de Aquiles: questões políticas, a necessidade de reformas e a dívida pública, por exemplo.

Na pandemia, o Brasil foi o país emergente que concedeu mais auxílio à sua população, cerca de 9% do PIB. Foi uma medida super necessária e louvável. Mas esses recursos não caíram do céu. O país se endividou ainda mais. Tivemos uma alta do déficit nominal para mais de 15% do PIB, e a relação dívida/PIB está perto de 100%. É uma das heranças da Covid-19, tal qual a taxa de desemprego na casa dos 12%.

Com um cenário de incertezas econômicas como este se descortinando logo aqui na frente – cenário sobre o qual não temos qualquer controle – resta pegar as rédeas das nossas próprias finanças. A dica de ouro é nos fortalecer para enfrentar possíveis tempos de vacas magras. Ora, temos escolhas sobre vários de nossos gastos. Muitos deles se acumulam no cartão de crédito. A pegadinha é não se endividar, caso não seja realmente necessário. As tentações são muitas e, às vezes, estão a um clique de distância. Vale a pena? Levantamento do Banco Central referente a novembro revela que a taxa de juros do cartão de crédito rotativo está em torno de 300% ao ano. Trezentos por cento. Trezentos.

Eliminar dívidas pode ser um bom primeiro passo para entrar com o pé certo em 2021. Início de ano é bom para começar dietas, projetos, mudar os hábitos. As finanças estão no pacote. Na primeira segunda-feira útil deste novo ciclo, renegocie sua dívida no cartão e afaste-se dos supérfluos. Se, além de conseguir evitar o endividamento, for capaz de poupar, nem que seja uma merreca, melhor. É esse colchão – e não as medidas do governo ou o desenrolar da pandemia – que vai permitir uma navegação mais tranquila de janeiro a dezembro próximos. O ano de 2020 jogou na nossa cara a imprevisibilidade da vida em estado bruto, sem sutilezas. Resta-nos cuidar daquilo que pode ser cuidado em 2021. Muito da saúde física e financeira está ao nosso alcance, como o uso de máscaras e o fim das dívidas desnecessárias. Em ambos os casos, guardadas as devidas proporções, paga-se um preço altíssimo ao ignorar aquilo que pode ser feito por nós.

Deixo aqui o link do comercial do Passaporte, dirigido por Luiz Sergio Person. Em tempos de vídeos efêmeros do Tik Tok, é legal demais apreciar a locução pausada, os termos usados e o visual da época nessa “longa” mensagem de 4 minutos. Estão lá também registrados hábitos, comportamentos e um pouco da história da cidade, como a “República Federal de Ipanema”. Mas, acima de tudo, a peça traz Ângela Diniz em um raro registro de vídeo.

Embora esta coluna seja sobre temas ligados à economia, permito-me usar o gancho para outro assunto. Isso porque, infelizmente, ao contrário do cartão de crédito datado, histórias como a de Ângela Diniz seguem atuais, vide o assassinato da juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi. Pela memória de Ângelas, Vivianes e por todas as moças que continuam sendo assassinadas todos os dias e de diferentes maneiras (como disse há décadas o poeta Carlos Drummond de Andrade), acredito que também aqui podemos, como sociedade, fazer algo para mudar a realidade.

Desejo que em 2021 a gente faça a nossa parte, aquilo que nos cabe, com esperanças renovadas, muita saúde e paz. Feliz Ano Novo.

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