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Luciana Brafman Por Luciana Brafman, jornalista e professora da PUC-Rio Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

Na pandemia, decisão no futebol envolve paixão, dinheiro e cautela

Ministério da Saúde deu parecer favorável a retorno de campeonatos, mas há polêmica. Sem Covid-19, Brasileirão já teria começado

Por Luciana Brafman - 4 Maio 2020, 14h06

Detesto pênalti. Fecho os olhos quando estou no estádio. Recuso-me a ver ao vivo na TV. São poucos segundos pra muita carga decisória; poucos protagonistas pra bagunçar a emoção de muita gente.

Em julho de 1994, abandonei a família na sala, me tranquei no quarto, sufoquei a audição entre travesseiros e só saí de lá, minutos depois, com a euforia da minha mãe: “Vem, Lu! Acabou. Ganhamos”. Passado o estresse, assisti aos lances decisivos de Brasil x Itália, no Rose Bowl – foram dezenas de vezes naquele mesmo dia e outras tantas ao longo dos últimos 26 anos. Sem pressão e com final feliz, é fácil.

No último sábado, assisti novamente à cobrança dos pênaltis, em reprise do filme Todos os Corações do Mundo, de Murilo Salles. É um filmaço, que entremeia a trajetória das seleções com depoimentos de torcedores e imagens das celebrações nos países participantes. Uma narrativa humana.

Além do famoso duelo Baggio x Taffarel – e da catarse do abraço coletivo no goleiro -, revi pérolas de Stoicovith, Hagi, Preud’Homme; o destino trágico de Escobar; a cotovelada de Leonardo; o míssil certeiro de Branco, com a inacreditável esquivada de Romário (meu Deus, o que foi aquilo?); a comemoração “nana-nenê” de Bebeto; a contagem regressiva de Zagallo, sempre ao lado de Parreira; o olhar fulminante de Baggio no túnel de acesso…

Tão marcantes quanto esses registros são as cenas emocionantes das torcidas, os festejos e as aglomerações. Dentro e fora do campo, futebol é contato, é suor, é abraço, é paixão… Trocas inimagináveis em tempos de coronavírus.

Mas futebol também é política e economia. É fato que a indústria do futebol gira uma fortuna mundo afora em investimentos, material esportivo, campeonatos, premiações, patrocínios, transmissões, salários dos craques, licenciamentos etc. O Brasileirão estaria começando neste domingo, 3 de maio. Em 2019, só o faturamento com bilheteria dos 20 times que disputaram o campeonato foi de R$ 280 milhões.

Assim, tamanha a importância do negócio, não surpreende que o Ministério da Saúde tenha dado parecer favorável ao retorno do futebol no Brasil, em meio à pandemia da Covid-19 e à vigência do distanciamento social. A recomendação do ministério – que tem ressalvas e não envolve a presença de torcida – alega que a volta dos jogos pode ajudar a manter as pessoas em casa com a teletransmissão. Talvez. As federações estaduais estão se posicionando. No Rio, alguns clubes já se manifestaram contra.

Neste momento, os estados brasileiros e diversos setores econômicos discutem medidas de retorno, avaliando quando e como fazer esse movimento. O futebol não é exceção. Nós, torcedores, estamos com muitas saudades da bola rolando, mas a decisão das autoridades deve ser tomada de forma muito cautelosa, responsável, sem adiantar o cronômetro. Não pode ser na base do pênalti – aqueles poucos segundos para decidir destinos e vidas.

Enquanto o juiz não apita, prefiro ficar com as reprises e torço pelos lances geniais de jogadores e clubes fazendo doações, renegociando salários e realizando campanhas de conscientização nas redes. Rivalidades à parte, seja qual for o escudo bordado no peito, todos os corações do mundo desejam atualmente a mesma coisa: o fim da pandemia do novo coronavírus e a volta do convívio social. E, aí, quando isso finalmente acontecer – sem riscos – vou lembrar das palavras da minha mãe em 1994: “Acabou. Ganhamos”.

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