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Luciana Brafman Por Luciana Brafman, jornalista e professora da PUC-Rio Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

A medicina do amanhã e a economia do hoje

O que o livro do médico Pedro Schestatsky também pode nos ensinar sobre saúde econômica

Por Luciana Brafman Atualizado em 28 jun 2021, 13h16 - Publicado em 28 jun 2021, 12h24

“Medicina do Amanhã”, escrito pelo neurologista gaúcho Pedro Schestatsky, chegou em minha casa um dia após a compra em uma livraria virtual, gerando séria desconfiança sobre a existência de uma filial da varejista online na portaria do prédio onde moro. Tão rápido quanto a entrega foi o tempo de leitura das 222 páginas, cerca de quatro horas, divididas ao longo de duas insônias. Além de bem escrito, o conteúdo é fácil e interessante, ao propor uma nova mentalidade de encarar a medicina, a partir de ideias como os 5 Ps ou a sigla MAP (de Movimento, Alimento e Pensamento). Restava a mim achar uma justificativa para a publicação de uma resenha literária sobre saúde e bem-estar nesta coluna de temas relacionados ao universo econômico. Só havia um jeito: entrei em contato e perguntei para o Dr. Schestatsky, que, gentilmente, me “recebeu” para uma entrevista via Zoom em seu consultório na capital gaúcha.

“Saúde e economia sempre tiveram forte relação”, afirma Schestatsky. “A pandemia deixou isso muito claro, a saúde é a moeda mais valiosa”. Em seu livro, ele se dedica a explicar como a genética, a tecnologia, os comportamentos que adotamos e os ambientes que criamos ao nosso redor podem convergir na direção de mais saúde e qualidade de vida. Isso passa necessariamente pelo empoderamento do paciente e pela mudança de relacionamentos. “A base de todo o conceito é gerar uma tripla conexão: a do paciente com ele mesmo, para que deixe de delegar completamente sua saúde aos outros; a do paciente com o médico, em um relacionamento mais horizontal; e a do paciente com a tecnologia, de uma forma positiva”.

A ênfase na medicina de prevenção, um dos 5 Ps do livro, gera ampla economia de recursos, seja na esfera pública seja no âmbito das empresas, e a tecnologia é um forte aliado nesse processo. A tecnologia à qual Schestatsky se refere vai de dispositivos simples, como aplicativos de contadores de passos disponíveis em celulares, até o acesso a bancos de dados complexos, como o que mapeia informações genéticas, ferramenta da medicina preditiva, outro de seus 5 Ps. “O mapeamento genético mostra os elos frágeis, não são sentenças de morte. A boa notícia é que somos 18% genes e 72% ambiente”, pondera. Os outros 3 Ps da medicina são a proativa, a personalizada e a parceira.

A junção da tecnologia com a humanidade para forjar um novo comportamento médico nasceu em um momento crítico na carreira de Schestatsky. “Eu estava frustrado com a medicina tradicional e tinha descoberto uma pré-doença ao fazer um exame admissional, para ingressar no setor público. Descobri que tinha uma inflamação sem sintomas. ‘Fique doente e volte para se curar’ era o que os médicos me diziam”, conta, destacando a reatividade da categoria, contra a qual se rebela, pregando a proatividade no segmento.

Médico e Autor do livro
Pedro Schestatsky Divulgação/Raul Krebs/Veja Rio

Em todo esse novo conceito, o cérebro desempenha um papel fundamental. E, para alinhar os eixos, Schestatsky criou o MAP. “Nosso cérebro depende de Movimento e Alimento”. O médico é ferrenho defensor da tese de que devemos dar 10 mil passos por dia, todos os dias, para melhorar a oxigenação cerebral. Ele não está propondo maratonas, são movimentos naturais, do dia a dia. Tão benéfico quanto o Movimento é o Alimento, resumido em dietas saudáveis, de comida “viva”, como a mediterrânea (pode vinho!). O Pensamento, vertical que completa o tripé, apoia-se na respiração, com ganhos na interatividade neuronal, gerenciando estresse, relacionamentos, sono, propósitos de vida. Desta forma, os hábitos diferentes podem ser implementados aos poucos em nossas rotinas – há dicas práticas no livro. O resultado impacta positivamente no microbioma (a ligação entre cérebro e intestino é um dos capítulos mais ousados), afasta males como o de Alzheimer e, de brinde, nos oferece oito anos a mais de expectativa de vida.

Quanto mais MAP, menos remédio na equação. “O MAP é anti-inflamatório, antidepressivo, anticâncer, aproximador de pessoas e redutor de remédios”, enumera.

Sem TV no quarto
Segundo Schestastky, sua lógica se baseia na máxima de que o ambiente sempre vence. “É mais fácil mudar o ambiente do que os hábitos. Não adianta comprar no supermercado um monte de junk food e dizer que é para as visitas. A visita vai à sua casa por você, não pela comida. Se não tiver refrigerante na geladeira, a sua família não bebe”. Outro vilão, ensina, é um monte de TV espalhada pela casa, principalmente no quarto de dormir. “Sabe por que eu não assisto a TV antes de dormir? Porque eu não tenho TV no meu quarto! Não tenho como ficar insone”, diz, enfático, destacando que também despreza o controle remoto em sua batalha contra a inércia que impera nos sofás.

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“Ande a pé, vá ao trabalho de bicicleta, more perto de uma feira orgânica, crie um ambiente que facilite escolhas saudáveis.” A partir dos alimentos, ele nos faz refletir sobre a naturalidade com a qual aceitamos ingerir diariamente substâncias químicas desconhecidas. “Não compre alimentos com palavras no rótulo que você não sabe nem o que significam”.

A fórmula que Dr. Pedro Schestatsky procura passar a seus pacientes e leitores é simples, trivial até. De algum modo, a partir da crença de que o ambiente sempre vence, ele procura reproduzir as Zonas Azuis de Dan Buettner e da National Geographic por aí. As chamadas Blue Zones são cinco regiões do globo que, por questões geográficas e culturais, oferecem um ambiente e estilo de vida que propiciam alto índice de longevidade e maior qualidade de vida. De posse de mais um dado, vem a ideia de planejamento urbano. “Você já ouviu falar do Raio da Vida? Pois saiba que passamos 80% do tempo de nossas vidas em um raio de 3,6 milhas. Em cada um desses círculos, as cidades poderiam ter, de modo planejado, uma feira, um posto médico, uma escola que ensine o poder dos fermentados às crianças, um limite para restaurantes fast foods, e assim por diante”.

Interesses capitalistas
O que Schestatsky propaga bate de frente, muitas vezes, com interesses capitalistas de indústrias poderosas atualmente, como a farmacêutica, a alimentícia e a hospitalar. “Cerca de 80% das causas de morte são preveníveis, causadas por remédios, cigarros, má alimentação”. Ele questiona lucros excessivos, ética publicitária e outros mecanismos difundidos pelo sistema, como a remuneração dos médicos pelos planos de saúde. Mas cita alguns movimentos de mudança, como o da operadora de saúde norte-americana Kaiser. “A remuneração dos cooperados, nesse caso, além de salários, se dá com base em seu desempenho anual, com métricas que vão desde a redução de internações por ano, passando pela melhoria dos níveis de glicose e colesterol dos pacientes atendidos até o número menor de intervenções cirúrgicas”. O método é o oposto do vigente hoje em muitos países, onde a remuneração dos médicos ocorre em função do número de procedimentos prescritos ou do número de pacientes que pipocam em consultas-relâmpago de 15 minutos.

Se as indústrias não se reinventarem – algumas já vêm enxergando isso -, Schestatsky acredita que não vão sobreviver, por mais poderosas que sejam. Ele cita o emblemático caso Blockbuster versus Netflix para ilustrar, pois há os que se apegam à vaca leiteira, até a última gota. Certa vez, ouviu da boca de um gestor de uma rede nacional de hospitais: “Pedro, as suas propostas preventivas são interessantes, só que hospital é que nem teatro, temos que manter a casa sempre cheia.”

Filho de um professor de medicina, Schestatsky, que também é professor, deixa claro que sua filosofia não é contra remédios, ao contrário. “Se o paciente pede, vou ouvir e posso receitar, não há problema. O remédio é mais uma ferramenta importante para termos saúde, só que deve ser usado na hora certa”.

“Somos o país com o maior número de pessoas depressivas e ansiosas do mundo”

Pedro Schestatsky

Schestatsky correlaciona os ambientes economicamente doentes em que vivemos com taxas de suicídio e casos de depressão. Infelizmente, o Brasil se destaca nesse ranking. “As pessoas se afundam em comida, em busca de dopamina por causa de uma dor, muitas vezes, a dor da desigualdade social, das dificuldades econômicas”, lamenta. “Aqui, temos 8 suicidas a cada 30 minutos, um país com o maior número de pessoas depressivas e ansiosas do mundo”. O dado assusta, principalmente se confrontado com o fato, descrito no livro, de que somos o sexto mercado farmacêutico, atrás de EUA, China, Japão, Alemanha e França. No Brasil, existe uma farmácia para cada mil habitantes, mais que o dobro do indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Medicina do Amanhã” (Gente Editora) é um livro que nos obriga a pensar sobre saúde e bem-estar, por isso mesmo toca em muitas feridas. Pergunto ao Dr. Schestatsky se ele não enfrenta uma jornada quixotesca com suas ideias. “Ao contrário do Harari, que eu adoro (Yuval Harari, escritor de Sapiens), eu sou um otimista. Acredito nos jovens, na informação, na transformação”. Ele destaca que o poder de decisão está em nossas mãos. “Vamos migrar de pacientes a agentes. E, para quem acha que o sistema sempre vence, digo que podemos amenizar as perdas.”

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