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Luciana Brafman Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

Economia real: os impactos do coronavírus além dos números

Vidas em jogo: drama do coronavírus é complexo e se revela tanto na saúde pública quanto na economia

Por Luciana Brafman - Atualizado em 23 mar 2020, 21h49 - Publicado em 23 mar 2020, 18h59

Taxa de contaminação, progressão geométrica, índice de letalidade, gráficos de disseminação da doença, perdas percentuais nas bolsas, redução do PIB… Em poucas semanas, mesmo quem nunca gostou de números está sendo bombardeado por eles.

Entre as tantas características do surto de coronavírus neste nosso mundo virtualmente globalizado, está a proliferação rápida da matemática. Seja pela ótica da saúde, seja pela ótica da Economia.

Sou jornalista, formada também em Ciências Econômicas, curso que costuma ser etiquetado como um “meio do caminho” entre Exatas e Humanas. A despeito de toda a numeralha, o surto do coronavírus pode nos ensinar a ter um outro olhar.

Quando os números se sobrepõem, a Economia perde seu lado humano. A cada dia, recebemos informações sobre a quantidade de infectados, o ranking dos países atingidos, as vítimas fatais, as projeções para as próximas semanas… Mas, na verdade, não são números. São pessoas.

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Suspensão de viagens, fechamento de comércio, adiamento de shows, cancelamento de cursos e paralisação do turismo também são quantificáveis e parecem se encaixar nas tabelas e estatísticas. Mas, de novo, não são números. São pessoas.

Antes do surto, em meados de 2019, verão europeu, uma amiga esteve na Espanha – hoje um dos países que encabeça muitas dessas reportagens que “contabilizam” a epidemia, com breaking news de balanços numéricos. O ponto alto da viagem, contou ela, não foi o Prado, a gastronomia, Museu Picasso ou Camp Nou… Encantada ficou com um artista de rua, Juan, um palhaço de cara limpa que se apresentava diariamente numa praça.

Em resumo, ela e a filha de 12 anos amaram o show do cara, super criativo, que fazia rir uma plateia eclética, lotada de turistas estrangeiros, moradores, crianças, jovens e velhos. O relato dela que mais me chamou atenção, no entanto, foi um detalhe: a postura profissional do palhaço. Ao fim do espetáculo, antes de passar o chapéu, ele explicou – de forma clara, de fazer inveja a muito executivo – que aquela era sua profissão e que o dinheiro ganho (de quem quisesse pagar!) garantia o seu sustento, aluguel, alimentação, transporte, lazer etc. Não era um complemento, uma gorjeta. Era sua remuneração, sua renda. Palmas. O chapéu ficou pesado.

Mas o que isso tem a ver com o coronavírus?

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Esse artista está agora, certamente, “desempregado” e sem perspectivas de curto e médio prazo. Ele, se não for transformado em um número, nos ajuda a entender o impacto do surto – e das necessárias medidas de isolamento – na economia real. A economia real, quando congela desta forma (lockdown, já ouviu falar?), afeta o dia a dia de milhões de pessoas como o Juan, com nome, endereço, família, necessidades, aspirações. Em Madri ou no Rio, lá longe ou bem do nosso lado.

Posso trocar o Juan da história pelo Antônio, que vende – ou vendia – mate na praia. Pouco antes de o surto chegar ao Rio, eram 40 ou 50 copos num dia de semana. Falei com ele na quarta-feira passada. Tinha vendido 2, um dos quais pra mim. Ou, ainda, posso contar a história do Rafael, pipoqueiro querido da Gávea, que estaciona(va) a carrocinha em frente à escola das minhas filhas.

O drama do surto de coronavírus é complexo e se revela tanto na saúde pública quanto na economia real. Em ambos os casos, vidas estão em jogo, não números. Em ambos os casos, a conscientização, a empatia, o senso de coletividade e a solidariedade são bons remédios.

Se as pessoas melhorarem, os números melhoram.

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*Luciana Brafman é jornalista, bacharel em Ciências Econômicas e professora da PUC-Rio.

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