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Luciana Brafman Por Luciana Brafman, jornalista e professora da PUC-Rio Economia, finanças pessoais e comportamento financeiro até pra quem não gosta

Mais frequente na pandemia, hábito de negociar é benéfico à economia

Crise abre espaço para ato de pechinchar, pouco comum no comércio e nos serviços formais do Rio

Por Luciana Brafman - Atualizado em 22 set 2020, 10h11 - Publicado em 21 set 2020, 16h57

Mesmo sem entender árabe, percebi que não eram amistosas as palavras do vendedor depois que agradeci, virei as costas e saí do pequeno comércio com as mãos abanando, há algumas décadas, na cidade velha de Jerusalém. Mas ele não desistiu: resmungando, correu atrás de mim e, com gestos amplos, “arrastou-me” de volta à sua minúscula loja de souvenirs no estreito e colorido “shuk” israelense, um tradicional mercado local.

“How much?”, ele me perguntou, segurando aquele punhado de pequenos e afortunados olhos turcos, que eu havia desistido de comprar minutos antes. Era a senha para que eu voltasse à arena da negociação e, quando regressasse ao Brasil, não fosse deserdada pela minha vó, que fez a encomenda (exigência) dos mimos azuis da sorte, que espantam o mau-olhado. Quanto eu queria pagar? Qual era o meu lance?

Como assim? Para uma carioca como eu, a pergunta gerou estranheza e desconfiança. Desse assunto, eu só tinha avançado até a página 1, que se resumia à compra de algumas bananas na xepa da feira na Praça General Osório. Nem com ambulantes eu tinha o hábito de pechinchar. Mas, para um árabe, isso é parte da cultura, da identidade, dos costumes. Assim, o fato de eu não ter feito uma contraproposta ao preço pedido inicialmente e de ter me retirado da loja foi considerado um pouco ofensivo.

Entre os aprendizados desta pandemia da Covid-19, está a arte de negociar. Para muitos brasileiros de classe média, a pechincha não é algo espontâneo, como em determinadas culturas orientais. Talvez sejam questões de cunho religioso, não sei dizer. Mas, não há nada como uma crise para relativizar as coisas.

Crianças em casa? Fomos todos negociar preços de escolas, cursos e atividades. Comércio formal precisando vender? Dia da caça… Reajuste de aluguel? Hora de conversar com o proprietário, que, obviamente, não quer ficar com o imóvel vazio. Em meio às incertezas, funcionários vêm negociando com seus chefes o fornecimento de itens diversos, tais quais cadeiras de escritório e equipamentos para o home office. Salários? Também não são intocáveis.

Propostas de descontos à vista, pacotes de serviços realinhados, formas de pagamento alteradas. Em pouco tempo, por motivo de força maior, muitos de nós perdemos o enraizado pudor de negociar e começamos até a pechinchar fora dos camelódromos. Com a flexibilização do isolamento social e a volta de muitas atividades, há uma segunda onda de negociações acontecendo, nos mais diversos formatos.

Todo esse processo gera benefícios adicionais, pois envolve a necessidade de uma certa organização das contas pessoais, alguma pesquisa de mercado, além da capacidade de escutar e de argumentar. Talvez o hábito de negociar tenha vindo pra ficar e não vá embora quando a pandemia acabar. Movimentos como alcançar um acordo ou atingir um preço de equilíbrio que satisfaça as partes envolvidas podem ser pequenos passos para a inclusão econômica, já que promovem uma maior transparência e conscientização sobre o uso dos recursos.

Negociar é sempre positivo. Possibilita um jogo de ganha-ganha, melhora os resultados. Seja na economia, seja na política, seja em nossa vida pessoal.

Bem, quanto aos pequenos olhos turcos, acabei comprando um saquinho deles com 40% de desconto, em uma típica negociação: ofereci a metade do valor, o vendedor ficou um pouco bravo, fez uma contraproposta e seguimos em uma espécie de encenação teatral, até chegar a um acordo no meio do caminho. Minha única certeza é que, mesmo assim, paguei caro, mas o que importa é que minha vó ficou muito feliz e, antes que ela pudesse presentear suas amigas com os olhinhos, peguei um para mim. Sem negociar.

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