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Lelo Forti Por Lelo Forti, mixologista

Gim: a hora e a vez do Made In Brazil

Destilarias e marcas se multiplicam a cada ano. O Brasil se posiciona como um dos celeiros desta revolução etílica global

Por Lelo Forti Atualizado em 14 Maio 2021, 14h43 - Publicado em 14 Maio 2021, 14h20

Como nasce uma tendência? De onde ela surge? Quem conduz o consumo disso? Qual o papel da indústria e do marketing nesta cadeia de produção? Quem é bom? Quem não é? Essas e outras tantas questões proliferam na minha cabeça para tentar compreender (se é que isso seja possível) sobre como nossa vida funciona. Este questionamento serve para o nosso dia a dia. De uma ida ao supermercado, a escolha do cinema ou do restaurante. Tudo está interligado. É quase que automático. Somos fiéis a marcas que habitam nosso imaginário, logo as consumimos durante a vida toda. Mas, espera aí: como isso tudo funciona? Sinceramente eu não sei.

Quando pensaríamos, em sã consciência, que, nós brasileiros estaríamos produzindo gim artesanal de ótima qualidade, preço competitivo e, pasmem, premiado mundialmente e um dos mais queridos da classe mixóloga do mundo? Produzir gim no Brasil não é novidade para ninguém. Desde os anos 70 isso acontece, porém, seu consumo sempre esteve ligado às minorias e em desacordo com o status de produtos de consumo. Bebidas destiladas sempre foram atribuídas ao status social favorável, desde que importadas. Fato. Whisky nacional? Nem pensar. Coisa de pobre. Cognac nacional? Heresia. Vinho nacional é coisa ruim. Essas e tantas outras palavras sempre foram atribuídas aos produtos etílicos nacionais. A cachaça é o maior exemplo disso. O brasileiro que bebe cachaça é, na sua grande maioria, consumidor de marcas e estilos industriais, de baixa qualidade e baixo custo. Quando o consumidor tem maior poder de compra, ele consome produtos destilados importados. Talvez por status, moda, ou simplesmente por acreditar que o importado gere mais valor social. O fato é: brasileiros (em sua grande maioria), gostam de produtos importados.

Apesar disso, nunca se teve tantas marcas de cachaças extraordinárias no mercado nacional, porém, quem mais valoriza ainda nossa “branquinha” é o consumidor estrangeiro. Já o vinho nacional ainda não desperta o respeito do consumidor interno. É preferido ainda, em sua grande maioria, consumir produtos de baixa qualidade, porém importados, do que algo bacana produzido em solo nacional. Exemplo disso, é o fato que toda e qualquer carta de vinho no Brasil tem imensa oferta global e quase nenhuma opção nacional. Triste realidade. Isso tem mudado a passos de tartaruga, muito também por culpa dos tributos nacionais exorbitantes e de taxas de importações amenas, fazendo o produto estrangeiro ser mais competitivo que o nacional. Vai entender.

Sabe o que trouxe o México para o mapa global? Tequila. Escócia é a mãe do whisky. Holanda e Inglaterra são os pais do gim. A América Central faz muito bem rum. A França nos ensinou a fazer champagne, cognac e vinhos, assim como a Itália, Grécia, Espanha, África do Sul e Estados Unidos produz vinhos maravilhosos. Todo mundo sabe que saquê é japonês. O Brasileiro, na sua maioria, tem vergonha da cachaça. Talvez esse ranço esteja atrelado aos tempos do império, onde a aguardente era de péssima qualidade e consumida apenas por escravos e pela plebe brasileira. O fato aqui é: nós não somos patriotas com nossos próprios produtos. Em décadas, o único produto nacional que eu assisti sair do consumo popular e virar orgulho nacional foi o chinelo (agora sandália) Havaianas. Antes de brigar com este colunista, faça um teste rápido aí na sua casa em família. Pergunte para citar de imediato, o que vier a cabeça, dez marcas que estão na ponta da língua. Sejam elas quais forem. A surpresa será quase nenhuma citação nacional. Entre meus pares, o resultado foi: Adidas, Nike, Coca Cola, Omo, Gilette, Absolut, Jack Daniel’s, Fiat, Sansung e Apple.

Gim, querido companheiro

Se esta pesquisa for direcionada para o âmbito etílico, a coisa fica ainda mais evidente. Provavelmente nenhum brasileiro saiba de bate pronto dez marcas de cachaça. Talvez lembre de dois ou três rótulos. Isso tem a ver com fatores como: desinteresse, nenhuma mídia, ou simplesmente porque não faz a mínima diferença em suas vidas. A única coisa boa disso tudo é que, mesmo com tantas adversidades e preconceitos, a cachaça ainda é o destilado mais consumido em território nacional e, logo, o produto numero um em taxação de impostos. Atualmente gira em torno 84% de tributos. Welcome to Brazil.

Mas se o brasileiro não tem o hábito de consumir cachaça, não bebe vinho nacional, porque raios esta consumindo gim brasileiro, quando as marcas mais famosas são estrangeiras? Qual a explicação deste comportamento? Pra ajudar a entender o que está acontecendo no mercado interno, busquei respostas em duas marcas nacionais de referência na produção de gim nacional e que estão fazendo muito barulho aqui e lá fora. Perdoem-me as tantas outras marcas de gim nacionais. Infelizmente, ainda não consegui provar grande parte do gim made in brazil, mas isso não torna sua marca menos importante. Pra não cometer injustiças, antes da minha pesquisa, pedi a dez dos principais mixologistas brasileiros que respondessem a seguinte pergunta: “Quais são as cinco marcas de gim que você respeita”?, metade deles citou, entre as cinco, duas marcas nacionais: Yvy e Amazzoni – ou seja, 40% dos produtos citados são brasileiros. Isso é extraordinário, promissor e muito revelador.

Da cozinha para o mundo

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Quando os amigos Arturo Isola, Alexandre Mazza e o mixologista argentino Tato Giovannoni brincavam de alquimistas na cozinha do bairro da Gávea, Zona Sul carioca em 2015, não imaginavam que, depois de cinco anos, estariam produzindo milhões de litros de gim nacional, premiado internacionalmente. “Nosso primeiro destilador era de vidro. Apenas cinco litros. Foi mais de um ano fazendo testes na cozinha de casa”, relembra Arturo, que confessou que a ideia inicial era, simplesmente fazer um gim brasileiro, uma vez que não existia nada nesta categoria artesanal. Este italiano, erradicado no Brasil, conta que no meio do processo, a empolgação com o resultado foi tamanha, que resolveram procurar um alambique, desta vez algo profissional, para testar a receita. “Achamos a fazenda em Barra Mansa (interior do Rio) que até hoje é a casa da primeira destilaria de gim artesanal brasileiro”.

O nome Amazzoni é uma homenagem a mulher brasileira e representa toda a diversidade brasileira. “A Amazônia é o lugar de natureza mais pura do Brasil. Alguns de nossos botânicos são de lá”. Arturo classifica o sucesso do gim nacional ao fato de que profissionais sérios da mixologia nacional, apaixonados por qualidade e coquetelaria, entenderam o projeto da Amazzoni e sua busca pela qualidade, preço justo e excelência, o que fez da marca uma bandeira de trabalho. “Foi um projeto espontâneo, não teve plano de negócio, empresário, empreendedores. Queríamos um produto para consumo próprio. Bem feito. Só isso”, revelou Arturo, explicando que o sucesso internacional, se deve exatamente por tudo isso, pela brasilidade, espontaneidade e carinho. “Os prêmios internacionais só reforçam nossos pilares mais importantes: a seriedade, a sustentabilidade, inclusão social e a qualidade do produto, vindo de um país sem nenhuma tradição na produção de gim”, enfatizou ele, que em 2020 produziu 200 mil garrafas.

Trilogia Mineira

Outro gim de grande aceitação nacional, a história do Yvy tem muito de Brasil e sua brasilidade. Foi desta paixão e da busca por essa essência que, em 2016, o empresário mineiro André Sá Fortes, trocou a administração de um bar para se tornar produtor de gim. Este mineiro conta que o critério principal foi não surfar a onda ou o modismo da época e se atirou de cabeça neste universo. “Fui para o berço da produção de gim na Inglaterra, para entender seus processos e adquirir propriedade de como são feitos os melhores rótulos do planeta”. Desta imersão ao universo inglês, conheceu o especialista e consultor Darren Rook, responsável pela criação de diversas bebidas pelo mundo. Deste encontro, surge a Yvy Destilaria, com DNA essencialmente brasileiro. Yvy signinfica território em tupi-guarani “o chão que pisamos”.

O empresário relembra que o desafio foi imenso: “Traduzir um Brasil autêntico, misturado e contemporâneo no copo. Todo Brasil dentro de uma garrafa de gim”. Desta ideia, nasceu a trilogia de gins brasileiros que estão fazendo sucesso nos bares do país. MAR é uma combinação inédita de ingredientes trazidos pelos imigrantes. TERRA homenageia os povos nativos e AR reflete um Brasil contemporâneo, da miscelânea de gente e ingredientes.

Recentemente, a Forbes Brasil publicou um artigo elegendo os rótulos mais importantes de gins brasileiros. Amazzoni, Yvy, Virga, Arapuru, Nib, Sapucaia Butterfly, WH 48, Becosa, Beg, At Five estão nesta lista. Ainda não provei alguns destes rótulos, mas achei muito relevante a importância de cada uma das marcas. Eu incluiria aqui ainda Vitória Régia e Apogee.

Tão importante quando o ranking das marcas foi a barreira quebrada por estes pioneiros. O primeiro passo já foi dado por estes inquietos, insatisfeitos e quebradores de regras. Não vivemos somente do que vem de longe. Somos muito mais do que o pulmão do mundo. 1/3 de todo o alimento global saem das mãos de agricultores e homens do campo do interior do Brasil. Sabemos fazer, temos técnicas rústicas, tecnologias, água, campo, ideias. Basta acreditar. Quanto mais fizermos coisa boas, sérias e com propósito, mais seremos respeitados e admirados pela grande abundância que temos. Cheers.

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