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Julia Golldenzon Por Julia Golldenzon, estilista carioca

Para assistir: O império de Pierre Cardin

Em documentário, o último legado do designer é dizer, aos quase 100 anos, que seu passatempo predileto era trabalhar

Por Julia Golldenzon Atualizado em 8 fev 2021, 20h02 - Publicado em 11 jan 2021, 15h05

Visionário, Pierre Cardin previu nos anos 60 um futuro de roupas unissex. Rompeu com o estilo lady like dos anos 50, apostando numa mulher que usava a roupa a seu favor, revelando uma modernidade descompromissada. Este que foi um dos mais importantes estilistas do século XX nos deixou nos últimos dias de 2020. Cardin faleceu em 29 de dezembro aos 98 anos.  E seu último legado é o documentário “O império de Pierre Cardin”, de P. David Ebersole e Todd Hughes, que marcou os 70 anos de sua marca e foi lançado no Festival de Veneza, em 2019.

Ao lado de nomes como Paco Rabanne e André Courrèges, Cardin foi um dos que revolucionou a moda nos anos 60. Inspirado na corrida espacial, recorreu a materiais sintéticos, como vinil e pele fake. O grupo, vanguardista, estava entre os responsáveis pela retomada do mercado de moda pós-guerra. O modo como ele revolucionou o design passa por seu olhar de arquitetura. Ao contrário de nomes como Saint Laurent, que se inspiravam em livros de arte e viagens, Cardin se lançava ao desafio de inventar um design, algo novo que representasse as inovações tecnológicas e comportamentais da década de 60 e 70. Para Jean Paul Gaultier, que teve seu primeiro emprego como “catador de alfinetes” no ateliê de Cardin, ele era um gênio.

Cardin introduziu grandes tendências na moda, sendo um dos primeiros a lançar coleções exclusivamente masculinas e se lançando no prêt-à-porter. Nascido em Veneza, na Itália, filho de agricultores, e naturalizado francês, Cardin começou a trabalhar aos 14 anos como alfaiate e foi o primeiro funcionário de Christian Dior, tendo colaborado para a coleção de estreia do estilista, lançada em 1947, que ficou conhecida como “New Look”.

Em 1959, Cardin inovou ao não se restringir às peças da Alta Costura e criou sua primeira coleção “prêt-à-porter”, escandalizando a moda. As roupas foram colocados à venda por preços acessíveis na loja de departamento francesa “Printemps” e, por não ter previamente comunicado a decisão à Chambre Syndicale de la Haute Couture (a Câmara Sindical da Alta Costura), ele foi expulso da instituição, onde foi readmitido anos depois. Ao longo de sua carreira, criou um império e também foi pioneiro no licenciamento de sua marca, associando a perfumes, restaurantes, hotelaria e outros produtos e segmentos, o que permitiu a forte internacionalização de seu nome, especialmente em países orientais.

Seu sonho era ser um artista, e por isso se aproximou muito do cinema e do teatro, sua grande paixão. Jeanne Moreau foi uma de suas musas, com quem, aliás, mesmo sendo homossexual, teve um relacionamento amoroso. Cardin chegou a ter um teatro, assinou dezenas de figurinos, como os do clássico filme “A Bela e a fera”, de Jean Cocteau, e vestiu os Beatles em ternos sem gola em 1963.

O filme “O Império de Pierre Cardin” narra sua trajetória e a importância de sua contribuição para o design. Embora o nome Pierre Cardin sempre tenha sido muito conhecido, poucos sabem quem era o homem por trás de tudo, já que ele sempre preferiu mais o trabalho que os holofotes. O estilista concedeu entrevistas ao documentário, que traz também depoimentos de Alice Cooper, Sharon Stone, Philippe Starck e Naomi Campbell, entre outros. Nonagenário, Cardin tem uma resposta muito simples quando lhe perguntam no filme qual seu passatempo preferido: “Trabalho”. O documentário está disponível nas plataformas digitais (Amazon Prime, Telecine, Google Play), e vale a pena conhecer um pouco mais sobre o homem que criou um império e trabalhou pela moda até quase 100 anos. Bravo, Pierre Cardin!

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