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Julia Golldenzon Por Julia Golldenzon, estilista carioca

Moda: como vamos nos adaptar e evoluir?

Estilistas internacionais estão repensando seus negócios e o calendário fashion, convocando os consumidores a refletir também

Por Julia Golldenzon - Atualizado em 18 Maio 2020, 14h11 - Publicado em 1 Maio 2020, 16h01

“A turbulência do momento é enorme, mas a chance de discutir o que está errado está em nossas mãos”. Com esta frase, o estilista italiano Giorgio Armani, uma referência para quem trabalha com moda, encerrou uma carta aberta enviada ao portal internacional WWD. Ele tem razão. As reflexões talvez sejam o que de mais valioso poderemos tirar em meio a essa pandemia mundial.

Um dos grandes representantes do setor, Armani faz uma crítica à velocidade à qual o mercado de luxo se submeteu especialmente na última década diante do crescimento avassalador do fast fashion, que passou a ditar as regras. O estilista aponta este movimento como o início do declínio da indústria como a conhecemos. “Luxo não pode e não deve ser rápido”, disse. E ele não está sozinho.

A Saint Laurent, outro ícone da moda de alto luxo, anunciou sua saída do calendário oficial de desfiles de Paris, ao menos em 2020. A marca anunciou em sua conta no Instagram que “decidiu assumir o controle de seu ritmo e reformular sua programação”.

A mudança no sistema nos últimos anos foi apresentada aos consumidores sob a narrativa da democratização da moda, com produtos com linguagem fashion a preços acessíveis. Mas alguém paga esta conta. Para dar conta da equação que equilibra aumento de lucro versus alta produtividade e produtos a preços populares, copia-se dos ateliês e das marcas de luxo, economizando na criação, e explora-se mão de obra, com centenas de trabalhadores mal pagos sob condições análogas à escravidão.

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Apesar de as marcas e os ateliês de luxo não terem se rendido a estas práticas, porque prezam pela excelência, criação e inovação, elas acabaram incorporando um calendário autodestrutivo implementado por estas redes de fast fashion, que, para compensar a margem de lucro tão apertada, passaram a abastecer as araras com itens novos em intervalos cada vez menores para estimular os clientes a comprar. Isso mal educou os clientes, não importa o poder aquisitivo, a uma avidez por novidades, em vez de uma valorização da qualidade e do estilo. Armani considera imoral suas “criações estarem em uma loja por somente três semanas e se tornarem obsoletas”. Mas é assim que as coisas vinham acontecendo.

A mudança que já se sentia necessária para sobrevivência da própria indústria, como aponta Armani, começa a acontecer, pressionada pelas reflexões e ações que a pandemia nos obrigou a fazer. Como declarou o diretor criativo Anthony Vaccarello, da Saint Laurent: “Não quero apressar uma coleção apenas porque há um prazo. Nesta temporada, quero apresentar uma coleção quando eu estiver pronta para mostrá-la”.

Mesmo pequenos, se comparados a estas grandes marcas internacionais, os ateliês e as grifes de luxo cariocas também sofrem esta pressão do calendário para lançarmos novidades no mínimo seis vezes ao ano. Mas o custo humano e criativo é alto. No meu ateliê, por exemplo, que tem 15 colaboradores, também estamos tomando este momento como lição. Para se ter uma ideia, o tempo mínimo para conceber e produzir um vestido de noiva exclusivo é de seis meses, com diversas etapas e profissionais envolvidos. O trabalho de desenvolvimento de uma coleção da nossa loja, com os looks prêt-à-porter, é ainda maior.

Os ateliês e as marcas de luxo fazem um investimento alto e de longo prazo em equipe para desenvolver coleções desejáveis e duráveis. Um vestido de alto luxo, assim como um carro incrível, não é fabricado por duas mariolas e não fica pronto em um dia. Uma boa bordadeira leva anos para se tornar uma boa bordadeira. Uma boa costureira leva anos para se tornar uma boa costureira. Uma boa modelista leva anos para se tornar uma boa modelista. Uma boa estilista leva anos para se tornar um boa estilista. Mas não é só isso. Um metro de seda pura chega a custar 20 vezes mais que um tecido 100% poliéster. Isso para mencionar apenas algumas diferenças.

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A carta de Armani, que soa como protesto, é uma crítica à própria indústria e também ao cliente, que incorporou a mentalidade da democratização da moda, comprando e gastando a uma velocidade inacreditável – para não dizer, às vezes, cafona.

A pandemia do coronavírus, o isolamento social e a crise econômica estão nos fazendo refletir. O consumo consciente ganha espaço assim como a atemporalidade e a singularidade. “O cliente deve voltar a valorizar a autenticidade do luxo, apreciar sua construção”, observa Armani. E aqui vai um convite à reflexão. Ao acompanhar este movimento internacional, fica a pergunta: como nós, brasileiros, tanto os profissionais da moda quanto os consumidores, vamos nos adaptar e evoluir?

Julia Golldenzon é estilista especializada em festas e noivas. Formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, ela trabalhou em marcas como Farm e La Estampa e, desde 2013, tem um ateliê no Leblon, que leva seu nome.

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