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Julia Golldenzon Por Julia Golldenzon, estilista carioca

Já que temos que lutar, que seja juntos

Setor de moda do Rio de Janeiro se une para doar quase 130 mil mil máscaras

Por Julia Golldenzon - Atualizado em 26 abr 2020, 20h11 - Publicado em 24 abr 2020, 19h32

Em meio a tantas incertezas no segmento de moda , é preciso olhar para as centenas de iniciativas de marcas e profissionais no mundo inteiro que estão beneficiando milhares de pessoas nesta pandemia Esta foi a indústria que primeiro se movimentou para transformar suas fábricas e direcionar suas equipes para colaborar na prevenção do coronavírus. E, confesso, tem sido inspirador ver e participar desta união em prol da sociedade.

Em meados de março, Bernard Arnault, CEO do grupo LVMH, instruiu a divisão de perfumes e cosméticos de todas as marcas do conglomerado para produzir quantidades substanciais de álcool gel para serem entregues às autoridades públicas da França. A Gucci está fabricando e doando 1,1 milhão de máscaras cirúrgicas e 55 mil aventais. A Ralph Lauren doou US$ 10 milhões, além de fabricar e doar 250 mil máscaras e 25 mil capotes para profissionais de saúde. A Uniqlo se comprometeu a doar 10 milhões de máscaras cirúrgicas enquanto a Prada doou UTIs e Giorgio Armani doou um 1.250 milhão de euros.

São muitas as iniciativas do mundo da moda. Todos, dos grandes conglomerados às pequenas marcas, estão sendo afetados financeiramente por conta do fechamento das lojas em prol do isolamento social, mas isso não os impediu de unir forças e ir além em benefício do maior número de pessoas que podem ser ajudadas.

E aqui no Rio de Janeiro não está sendo diferente. Embora esteja com as lojas e o atelier fechados, a estilista Andrea Marques acionou amigos para ajudarem na doação de material e direcionou sua equipe para produzir 5.500 máscaras e 1.900 capotes que em breve serão doados ao Instituto Nacional de Cardiologia e ao Hospital Clementino Fraga Filho (UFRJ). “Estávamos com dificuldades de conseguir os insumos, mas chegaram na semana passada 7 mil metros de TNT, e a equipe de 15 costureiras está produzindo para podermos contribuir o quanto antes.”

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A Granado doou 2 mil litros de sabonete líquido e xampu para instituições apoiadas pela Unicef e mais 3 mil litros para hospitais, asilos, creches e comunidades, como Cidade de Deus e Chapéu Mangueira. E este mês, 10% de todos os pedidos do site da marca serão destinados para a plataforma Rio Contra o Corona, do movimento União Rio, que vai reverter em ajuda para comunidades do Rio – e até agora já conseguiu arrecadar R$ mais de 100 mil reais em abril.

A estilista Yamê Reis, idealizadora do projeto Rio Ethical Fashion, está atuando em três grupos principais que reúne profissionais de moda e cultura. Um deles envolve inovadores da indústria têxtil e sustentável que pesquisou no início de março, em parceria com o Senai-Cetiq e da Abit, materiais e modelagens adequados para a produção de máscaras de tecido. O outro ligado ao projeto Moda Sustentável, do Sebrae RJ, é de pesquisadores de sustentabilidade e de pequenos empreendedores de toda a cidade que paralisaram as vendas, se reposicionaram para ajudar contra o coronavírus, fizeram doações de tecido e ajudaram a gerar renda para costureiras. E há ainda um terceiros grupo, de amigas como Bia Lessa, Mari Stockler e Rita Wainer, que criou a campanha #TodxsdeMascara e está arrecadando doações de tecido e dinheiro por marcas como Cantão, Eva, Andrea Marques e Whymann e da indústria têxtil. “Estamos conseguindo distribuir estes tecidos e pagar costureiras pela produção, gerando renda para estas profissionais que estão produzindo máscaras para serem distribuídas na Rocinha, na Maré e em outras comunidades por meio da plataforma Rio Contra o Corona, do União Rio”, conta Yamê.

A produção e distribuição de máscaras tem sido a principal iniciativa – ainda mais agora que se tornou obrigatório na cidade o uso do item como ação para conter o contágio. Pequenos ateliês, como o meu, também estão neste movimento. No Ateliê Julia Golldenzon estamos produzindo três mil máscaras para doar. Já a Armadillo, reutilizando retalhos da produção, desenvolveu 4 mil máscaras de tecido que também serão doadas. A Reserva já distribuiu 13 mil máscaras e quer dobrar este número. A Farm, em parceria com a produtora Silva, está produzindo 52 mil máscaras para serem distribuídas em comunidades cariocas. Lenny Niemeyer convocou suas costureiras para produzir 4.800 máscaras para distribuir para a Central Única das Favelas, a ONG Lar Meninos de Luz e para funcionários da marca usarem e distribuírem para quem precisa.

As marcas Patricia Viera e Horto, que seria lançada agora pela estilista Maria Mendes, uniram forçar. Patricia destinou mesas e máquinas de corte para cortar 23 mil máscaras de TNT e quase 10 mil de tecido. Maria encomendou os tecidos e fez de sua casa um centro de operações, distribuição e logística, além do financeiro para organizar as doações. “Uma semana depois do isolamento social, nós começamos a trabalhar e isso me acordou para fazer mais pelo outro. Estamos fazendo nosso papel na moda, temos responsabilidade com a saúde, o cuidado com o outro e com a autoestima também”, conta Patricia. Foram beneficiadas comunidades como Muzema, Morro dos Prazeres e Vila das Canoas, entre outras, e também para o Corpo de Bombeiros, a Fundação Darcy Vargas e o Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras, entre outros. “Poder gerar trabalho para as costureiras durante esse período da pandemia é uma forma de garantir alguns meses de renda para estas pessoas que são ou já foram colaboradoras das nossas empresas e para ajudar a difundir o uso da máscara para todos”, complementa Maria, que acabou de ter filho – a linda Stella está com apenas um mês.

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Só com as iniciativas no Rio de Janeiro citadas nesta coluna até aqui, contabilizamos a doação de mais de 128 mil máscaras.

Isso para falar apenas de iniciativas no Rio de Janeiro. Em outras cidades, as ações do segmento de moda também estão a todo vapor. Entre as grandes redes, a Renner doou R$ 4,1 milhões para hospitais e produziu mais de 1 milhão de máscaras para profissionais de saúde. A Natura e a Avon doaram 2,8 milhões de sabonetes. A Riachuelo fabricou 12 mil aventais hospitalares para pacientes.

Estamos todos enfrentando a maior crise econômica do setor nos últimos anos, mas, podem ter certeza, está dando um enorme orgulho de cada um, de cada marca, de cada costureira, de cada estilista e de cada empresário que está fazendo seu máximo para ajudar nesta pandemia. Isso inspira mais e mais profissionais a entrarem nesta batalha contra a Covid-19. Já que temos que lutar, que seja junto.

Julia Golldenzon é estilista especializada em festas e noivas. Formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, ela trabalhou em marcas como Farm e La Estampa e, desde 2013, tem um ateliê no Leblon, que leva seu nome. 

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