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Gustavo Pinheiro Por Gustavo Pinheiro, escritor, dramaturgo e roteirista

Coronavírus: os casamentos vão sobreviver ao confinamento?

A pandemia está testando a capacidade de convívio dos casais

Por Gustavo Pinheiro - Atualizado em 24 mar 2020, 14h20 - Publicado em 23 mar 2020, 11h16

Confinamento – Dia 01:

– Ai, Luis Alfredo! Nem acredito que você vai trabalhar de casa e a gente vai poder ficar juntinho, amor!

– Nem me fala, Monique! Duas semanas sem ver a cara do Pimenta. Bom demais!

– Quem?

– Pimenta, o chefe novo, aquele baixinho de São Paulo, que só usa camisa Dudalina. Ódio daquelas camisas! Sabe punho combinando com a gola?

– Esquece esse homem! Agora somos só nós dois. Um Big Brother pra chamar de nosso! Comidinha caseira, Netflix… Eu vou mandar as crianças para a casa da mamãe… Vamos matar as saudades dos bons tempos da nossa lua de mel na Itália.

– Ah, Itália…

 

Confinamento – Dia 04:

 

– Você vem sempre aqui?

– Como assim, Monique? Sou eu, João Alfredo, seu marido!

– Ai, desculpa! Não tô acostumada a te ver aqui na área de serviço.

– Vim pendurar a toalha do banho.

– Não acredito que você usou a minha toalha, Luis Alfredo! A gente não pode compartilhar os talheres e as toalhas.

– Ô Monique, a gente tem sete jogos de toalhas de cor diferente. Por que cada um não escolhe uma cor?

– Ai, não consigo! Passei a vida usando tudo combinadinho. Tá pra nascer o vírus que vai desfazer meu jogo de toalha. Vem cá, você não tá achando as crianças muito silenciosas?

– Crianças?

– Os nossos filhos, João Alfredo.

– …

– Lucas e Bia, João Alfredo.

– Claro, Lucas e Bia! Eu dei um quebra cabeças de 8 mil peças pra eles. Só vão acabar no Dia das Crianças.

– Papai, acabamos!

– O quê?!?

– E agora, papai, vamos brincar de quê?

– Monique, será que a sua mãe não pode ficar um pouco com as crianças? Só uns meses, até eu poder voltar para o escritório.

– Não dá, Luis Alfredo. O ministro mandou ela ficar isolada. E olha que ela fez aquela ambrosia que eu adoro… Ódio desse ministro! Ele me ganha é com aquelas olheiras… Desde o FHC não tinha uma olheira tão charmosa no poder.

– O quê?!

– Nada, Luis Alfredo! Tava só pensando alto! Tô acostumada a pensar alto em casa, você nunca tá aqui.

– Tá tocando! É o meu ou o teu? Se for o Pimenta, diz que eu não tô!

– Não está?! E onde você estaria, Luis Alfredo?

– Cara chato! Não entendeu que tô de quarentena.

– Mas você não está doente, Luis Alfredo!

– Ssshhhh! Vai começar “O casamento do meu melhor amigo” na Sessão da Tarde!

 

Confinamento – Dia 07:

 

– João Alfredo, vai colocar uma roupa?

– Eu estou na minha casa!

– Daqui a pouco eu vou abrir a webcam para uma reunião e você está com essa cueca frouxa do Flamengo.

– Olha lá embaixo, Monique… A rua vazia, vazia. Saudade do barulho da rua.

– Agora tô achando que a Covid te pegou mesmo… Você vive reclamando da barulheira, até ameaçou processar o botequim da esquina!

– É maneira de falar, Monique, maneira de falar…

– E quando for falar, fala pra lá, porque a gente pega esse troço pelas gotículas da saliva.

– Não lembro de te ver tão preocupada com as gotículas quando eu tava dando baixa na louça da pia.

– Ai, Luis Alfredo, saudade das doenças de mosquito. Aquilo era outra categoria, o inimigo se mostrava pra jogo. O Brasil caiu mesmo nos últimos anos…

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– É no mundo todo, Monique, você ainda não entendeu? Passa o dia vendo Globonews e ainda não entendeu que pipocou pra geral?

– Tá muito grosso, hein, Luis Alfredo… tá achando que eu sou aquelas secretarias que aguentam as tuas patadas no escritório? Sabe nem fazer um ppt e fica cantando de galo.

– Que barulho foi esse?

– Lucas, meu filho, cospe!! Cospe!! Mariana, quantas vezes eu já falei que não é pra mandar o seu irmão comer slime!?

– Ô Monique, tem que dar celofane, canetinha, cartolina pra essas crianças. Deu na televisão que tem que estimular as atividades lúdicas em família. Tá todo mundo postando foto dos filhos fazendo coisas lúdicas. Tô chocado como você é zero lúdica, Monique.

– Isso é pro filho dos outros, né, Luis Alfredo… Criança que tem pai. Olha aí, ó… carpete todo verde de slime… E a Janete nem tá vindo pra dar um jeito nisso…

– A Janete não vem de novo?!

– Tive que liberar, né, Luis Alfredo. A vizinha do 201 não liberou e teve panelaço contra ela nas janelas do condomínio.

– Se a Janete não vem, pede um iFood.

– Ficou rico é? Ainda tem frango com quiabo na geladeira.

– Aquele frango do primeiro dia do confinamento?!

– Depois faz o doc da Janete.

– Não vem e ainda recebe?!

– A vizinha do 404 não pagou e teve panelaço contra ela nas janelas do condomínio. A Janete é Bradesco. Faz uma TED.

 

Confinamento – Dia 12:

 

– Luis Alfredo, cê num sabe. A Cremilda.

– Quem?

– A Cremilda. Mãe da Lucélia, irmã da Milene…

– Não sei quem é…

– Aquela que foi minha colega no cursinho, que depois trabalhou com o Paulo Cesar naquela lojinha da Barata Ribeiro…

– Nem ideia.

– Então, ela morreu.

– De quê?

– De Covid, meu filho. Tava de férias em Milão, voltou com uma tosse seca, demorou a procurar ajuda achando que era efisema… aliás, te falei que a Vera Lucia passou no Enem?

– Volta pra Covid da Cremilda, Monique. Depois a gente vai pro Enem da Vera Lucia.

– Então, diz que demorou a procurar ajuda achando que era o efisema. Não era. Morreu.

– Férias na Itália com o euro a seis? Tava rica a Cremilda, hein?!

– Saudade da Itália, né, amor?

– Eu não gostei da Itália. Pronto, falei. Muita mão balançando, muito molho branco, muito boneco sem braço.

– Tá louco?! Esqueceu de Veneza?

– Eu não gostei de Veneza. Pronto, falei. Tudo cheio, parece a Central. Você sabe que eu enjoo em gôndola. Prefiro muito mais Macaé.

– Na nossa lua de mel você tinha adorado Veneza, Luis Alfredo!

– Mudei. Se o Corona pode sofrer mutação, eu também posso.

– Luis Alfredo, a escola mandou um monte de dever para as crianças fazerem em casa.

– E daí?

– E daí que tem que sentar com eles e estudar, né, Luis Alfredo?

– …..?!

– Luis Alfredo, eu tô falando com você!

– Alô, Pimenta, aqui é Luis Alfredo. Como é que vai essa força? Então, tô te ligando porque eu tô me sentindo muito bem, viu. Se precisar de um reforço aí no escritório… Sério?! Então maravilha! Tô às ordens. Até amanhã! Aquele abraço, meu amigo. Abraço não, que abraço não pode. Aquele chutinho!

– Eu não tô acreditando que você vai quebrar a corrente do confinamento, Luis Alfredo!

– É a saudade das camisas do Pimenta, Monique! As camisas do Pimenta!

 

Gustavo Pinheiro é carioca, escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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