“Temo que a decadência do Rio não tenha cura”, diz Fernanda Torres

Para a atriz, é como se houvéssemos cruzado um ponto sem retorno. Leia na crônica da semana

 (Isabelle Barreto/Veja Rio)

Aconteceu em janeiro deste ano. Uma nevasca de proporções jamais vistas caiu sobre a cidade em que eu me encontrava. Colapso geral de transporte; ruas e comércio fechados; alertas pedindo à população que permanecesse em casa.

Durante toda a tarde, o ronco das avalanches ecoou no vale, enquanto a neve caía pesada, bela e silenciosa.

Das janelas do apartamento, contemplei a paisagem com a vida em suspenso. O prazer impotente de não ter nada a fazer.  A falta de desejo, de ansiedade, de medo ou obrigações. Sem culpa, voltei ao crochê.

Me lembro da suspeita de que aquele estado de espírito continuaria comigo depois da tormenta. E assim foi. Voltei para o Rio plena de uma ausência esquisita, de uma indiferença sutil.

Trabalhei como de costume, mas com a certeza de não estar presente. Foi bom, confesso. Foi bom por um tempo, até que a distância se voltou contra mim.

A impotência de janeiro já não parece tão vantajosa. Hoje, não é mais a catástrofe natural que me provoca a paralisia, mas a insanidade e o descaminho do que está ao redor. Ando pela cidade em que nasci e cresci com medo, olho as calçadas sujas e conto os anúncios de aluguel e venda de imóveis, que se multiplicam pelas fachadas. Todos os dias recebo a notícia de uma família que vendeu tudo e se mudou para São Paulo, para a Califórnia ou para Lisboa.

Um amigo me disse que o prédio dele esvaziou, os vizinhos fizeram as malas e se mandaram do Rio. “Tenho pânico de me transformar no velhinho de Bertioga”, disse ele, receoso de insistir num lugar sem solução.

Temo que a decadência do Rio não tenha cura. É como se houvéssemos cruzado um ponto sem retorno. Crivella manda a Márcia atender os fiéis, o rombo financeiro só aumenta, as taxas de violência explodem e as eleições se aproximam sem nenhum candidato que, de fato, aponte uma saída digna. Olho meus filhos com profunda preocupação.

O dia passa e eu passo com ele, à espera de um acontecimento. Assino petições, me engajo, escrevo, atuo, mas o frio permanece igual.

A realidade nem sempre reflete o espírito das pessoas. Quando isso ocorre, no entanto, para o bem ou para o mal, é como se a alegria e o pesar ganhassem contornos concretos. A crise do país se sentou na minha sala, dorme comigo na cama, e anda difícil me separar dela.

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