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Fernanda Torres Por Blog Blog da atriz Fernanda Torres

Rabiola

Leia a crônica de Fernanda Torres da semana

Por Fernanda Torres - 7 jan 2018, 11h00

O verão 2017 demorou a dar as caras. Ao longo de todo o semestre passado, as chuvas e as manhãs nebulosas abençoaram o Sudeste com um clima ameno. Mas ele veio, o rei Sol, acompanhado do habitual calor de rachar.

Em dezembro, no primeiro domingo de bafo, apavorei-me com o tédio do filho pequeno, exigindo a ação da mãe prestimosa. Relutante em abandonar o quarto condicionado, anunciei: PRAIA!

Apesar do nojo que eu sinto do mar do Leblon, foi para o Posto 12 que me encaminhei, atraída pela coleção de amiguinhos que haviam marcado por lá. A água, não muito clara, parecia aceitável, sem espumas suspeitas, ou marés vermelhas para estragar o programa.

Sentei-me entre as mães e pais zelosos, e nós ficamos ali, protegidos dos raios UV, olhando os pequenos na beira d’água. Já passava das 11 e a brisa era fresca quando um milagre gravitacional cruzou nossa visão.

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Uma bunda admirável correndo num trote firme, impávido colosso que calou a boca de todos os presentes. As duas meias-luas duras, sem furinhos de celulite a conspurcar o redondo perfeito, vinham seguras por um fio-dental protocolar.

Vencido o impacto, meus olhos acompanharam a linha do biquíni até a barriga de tanquinho e os braços bem definidos, tudo recoberto por um bronzeado uniforme. Só então me ative ao rosto do corpão. Era o de uma mulher madura, talvez passada dos 50, que ainda ostentava aquele porte. Me deu vontade de aplaudir.

O silêncio boquiaberto da roda de genitores perdurou até a aparição sumir em direção ao Arpoador. Fui eu que o rompi, com um “Noooossa…” embasbacado. Um dos pais reagiu surpreso. Ingênuo, acreditava ter sido o único a notar o fenômeno que nos esfregara a saúde na cara. A bunda virou o assunto da próxima hora.

As moças confessaram, em uníssono, ter abandonado a batalha pela perfeição. E olha que havia corredoras semiprofissionais no grupo. Eu, que da cintura para cima não tenho do que reclamar, expliquei que havia desistido da rigidez dos baixios. Os homens queixaram-se da maldição da barriga e todos concordamos que, depois de uma idade, importante mesmo é praticar a arte da aceitação.

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Mas, apesar do abalo da cinquentona inteiraça, eu gostaria de fazer, aqui, um elogio à democracia da pelanca, que dita as regras no nosso balneário.

Olhei ao redor, com um sol a pino cruel a ressaltar as imperfeições, e constatei que o traseiro rijo, fruto de um DNA privilegiado e de doses maciças de leg press, é exceção. Panças caídas, traseiros murchos, braços roliços e coxas bambas imperam na orla, sem receio de ser felizes. O bom da vida é viver.

Resignados, encerramos aquela manhã em trajes sumários, com um altinho amador na companhia da prole. Sacolejamos, sem censura, as carnes moles, sabendo que 2018 não as fará mais firmes.

Quem sabe, na próxima encarnação, eu não volte com as curvas daquela senhora? Enquanto isso, corro com o meu shortinho pudico, e curto, como posso, mais uma temporada escaldante do Rio.

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Bom verão pós-rabanada!

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