Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês
Fernanda Torres Por Blog Blog da atriz Fernanda Torres

Praça Mauá

Praça Mauá, Praça feia, malfalada… Os versos da canção de Billy Blanco do início dos anos 60 não fazem mais jus à praça, que sofreu uma bem-sucedida plástica. Vale a visita. Sem o horror da Perimetral, caminha-se livremente até a Baía de Guanabara em meio aos canteiros verdes, com o Museu do Amanhã quase terminado […]

Por fernanda Atualizado em 25 fev 2017, 17h50 - Publicado em 22 set 2015, 21h18

Ilustracao

Praça Mauá,
Praça feia, malfalada…

Os versos da canção de Billy Blanco do início dos anos 60 não fazem mais jus à praça, que sofreu uma bem-sucedida plástica.

Vale a visita.

Sem o horror da Perimetral, caminha-se livremente até a Baía de Guanabara em meio aos canteiros verdes, com o Museu do Amanhã quase terminado ao fundo e o MAR ao lado; e torce-se pela recuperação do imponente, e ainda abandonado, prédio da Rádio Nacional. Seria a glória.

Eike tinha planos de restaurá-lo, mas faliu antes do feito. Espero que o mesmo não aconteça com as empresas envolvidas na remodelação.

O Centro, enterrado por tantas décadas debaixo do monstruoso viaduto, volta a fazer sentido, com a Rio Branco cruzando a cidade de mar a mar.

Continua após a publicidade

Descobri os novos prazeres da região há vinte dias, na missa de sete anos da morte do meu pai, realizada num Mosteiro de São Bento tinindo de novo. A família deixou a igreja e saiu em carreata para conhecer as obras recém-inauguradas, os túneis e os mergulhões que permitem a livre circulação pela Zona Portuária, da Praça Mauá até a Francisco Bicalho.

Minha mãe, no banco do carona, foi descrevendo os prédios e ruas em que circulou na juventude: a Rádio Nacional, a TV Tupi, o casario da Saúde e da Gamboa; enquanto o neto, no banco de trás, admirava os bairros desconhecidos por mim, mãe dele, graças ao progresso urbanístico equivocado.

No sábado seguinte, voltei com a prole para ver a ArtRio e, no domingo, as três gerações bateram ponto na efervescente Fábrica Bhering, com ateliês, galerias, lojas e concertos de violino ocupando o imenso espaço no Santo Cristo.

Há seis anos, agradeci ao prefeito Eduardo Paes pela implosão daquela passarela pavorosa erguida na divisa entre Ipanema e Leblon. Agora, repito o gesto por algo bem mais significativo. Nos meus 50 anos, eu jamais havia transitado por aquela área, nem sequer entendido o labirinto de ruas que cruzei e recruzei nesses dois últimos fins de semana.

Em meio a tantas notícias funestas e previsões de um futuro negro para o Brasil, a reviravolta do Centro serve de alento. Recomendo a visita como antídoto à depressão, à sensação de que só se caminha para trás. Algo de concreto foi feito ali. No breve período de bonança, aproveitou-se a janela de oportunidade para agir com bom-senso e inteligência. Num país acostumado com promessas de campanha que nunca são cumpridas, parece até milagre.

Ouvi críticas a respeito da mistura entre gestão pública e negócio privado empregada na reforma do Centro. Eu não sei quais serão as consequências futuras desse modelo. Mas é preciso reconhecer, independentemente das convicções político-partidárias, que houve um avanço significativo no coração da cidade.

Eduardo Paes vai deixar saudade.

Continua após a publicidade
Publicidade