Doutorada

O cineasta inglês Stanley Kubrick sentia tédio na escola. Num documentário póstumo sobre o diretor, seu colega de classe conta que, depois de ceder o dever de casa pela terceira vez para que o amigo o copiasse, arriscou perguntar se ele enfrentava alguma dificuldade no estudo. “Não”, respondeu Kubrick, “eu não me interesso mesmo.” O […]

Isabelle Barreto

O cineasta inglês Stanley Kubrick sentia tédio na escola.

Num documentário póstumo sobre o diretor, seu colega de classe conta que, depois de ceder o dever de casa pela terceira vez para que o amigo o copiasse, arriscou perguntar se ele enfrentava alguma dificuldade no estudo. “Não”, respondeu Kubrick, “eu não me interesso mesmo.”

O cérebro de 2001, uma Odisseia no Espaço; Barry Lyndon e Laranja Mecânica não cursou faculdade e nutria desprezo pela educação baseada no medo de não obter boas notas. A curiosidade tem a potência de uma bomba nuclear, dizia ele, quando comparada ao estampido produzido pela paranoia do ensino.

É preciso ter cuidado para não confundir independência letiva com o amadorismo crônico. Kubrick foi um gênio obsessivo, estudou a fundo fotografia antes de se tornar diretor; tinha uma cultura refinada; um conhecimento de música acachapante; além de jogar xadrez como um Kasparov.

Eu não tenho nem o pingo do “i” do QI do cineasta, mas me agarrei às suas palavras quando fui preencher um questionário para a editora Restless Books, que vai publicar meu romance, Fim, nos Estados Unidos.

Entre tantas perguntas, lá estava o fatídico item: breve resumo do grau de educação, universidades que cursou, doutorados e mestrados.

Estanquei, intimidada. O mundo literário é peso-pesado em matéria de formação. Como explicar que eu comecei a trabalhar aos 13, que cursei o Tablado e nunca pisei numa faculdade? Como admitir que escrevo quase que por acidente? Cogitei incluir minha infância nas coxias de teatro, assistindo a Dürremat, O’Neill, Nelson e Millôr, mas desisti. Justifiquei minha escolaridade como pude e enviei o currículo algo humilhada.

Eu me curei do sentimento de inferioridade com Adriana Calcanhotto. Ela está de partida para Coimbra, onde dará aulas sobre poesia brasileira na grande universidade lusa. A professora Adriana também foi obrigada a preencher um formulário de inscrição e sofreu da mesma angústia que eu.

Parada, diante do quesito currículo educacional, temeu admitir a verdade: 2º grau incompleto e pós-graduação nos palcos de barzinhos boêmios da noite porto-alegrense. Vencida, optou pela honestidade e assumiu o passado alternativo.

Tenho uma admiração profunda pelas composições da gaúcha e pelo seu canto, que faz aflorar de forma cristalina a poesia das letras. Adorei saber que lecionaria em Coimbra. Eu podia jurar que havia uma instrução sólida por trás do seu refinamento, mas, não, foi a vida que a educou.

Adriana, no entanto, é uma autodidata doutorada, capaz até de ministrar cursos, o que nem me passa pela cabeça.

A falta de ensino superior gera uma insegurança incurável. É impossível medir o conhecimento de quem aprende na estrada. Não existe diploma que comprove o progresso. Lê-se muito, e pouco, de forma alternada, caótica, sem jamais formar uma linha de pensamento confiável.

Quem seguiu esse caminho sabe, como nenhum Sócrates, que só sei que nada sei.

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