Dezoito

Leia na crônica de Fernanda Torres

Meu filho completou dezoito anos. Dezoito anos. É uma data e tanto para uma mãe.

E ainda mais significativa por ela ocorrer num momento de destrambelho total da nação, da Justiça, da economia, da política, da ética e da arte. Chegar à maioridade em meio a tanto desencontro assusta, e muito, a mim, que o botei no mundo. Olho meu filho e me preocupo com o futuro, não só dele, mas da humanidade. Ser mãe tem dessas coisas, esse desdobrar de ansiedades.

Que deus turvo, fugidio e insidioso é o futuro, que grande malaco ele é.

E, se pensar para a frente angustia, a mãe escolhe olhar para trás. E tenta, no passado, pensar no dia em que completou dezoito anos. Esse dia também veio numa hora dura, com as finanças do país em frangalhos, com Diretas que não passaram, com a aids e a decadência do Rio a assombrar. As revistas e os jornais costumavam estampar um túnel em suas capas, cujo fim nunca chegava, mas eu acabei chegando a algum lugar. Cheguei a ele, ao meu filho, que hoje tem dezoito anos.

A vida sempre arruma um jeito, repito a velha máxima. Se eu encontrei uma saída, ele também encontrará.

Meu filho cursa filosofia, gosta de literatura, de música, se encantou com a lógica e veio ao mundo com um desejo genuíno de aprender, e de saber o que não sabe. É uma inquietude que nasceu com ele e se desenvolveu na adolescência. Se aprendeu alguma coisa comigo, com o pai e os avós, foi por osmose. A vida cabe a cada um, e é preciso ser autodidata.

No almoço de aniversário, um amigo, quase parente, declarou estar convencido de que a nossa geração, a minha e a dele, viveu um hiato de liberdades. A revolução de costumes da década de 70 nos entregou de bandeja uma sociedade mais aberta.

Vivemos o fim da Guerra Fria, do temor do botão vermelho, e vimos os exilados tomar um avião de volta. A política e a economia, a insegurança e a desigualdade social nunca deram trégua, mas, no convívio com os amigos, no Circo Voador do Arpoador, nas crias que o Asdrúbal deu, no Brock, no cinema renascido, no teatro e na geração 80 das artes plásticas, experimentei um sentido de futuro, que desapareceu agora.

As patrulhas voltaram, a moral e os bons costumes, as guerras santas e a crença em profetas autoritários. O mundo recuou para como era na minha infância, quando eu ainda não tinha a consciência para sofrer ou me assustar com o que existia para além da minha casa, do meu bairro e da minha escola.

Em quatro anos, meu filho completará a faculdade, e, como toda mãe sempre acaba por fazer, rezo para que ele encontre uma sociedade menos histérica, agressiva, punitiva e corrupta quando se formar. Rezo para que Trump não esteja no poder e para que o Brasil saia do atoleiro, sem cair nas mãos de bárbaros.

Rezo para que exista espaço, nesse tal desse futuro, para cabeças como a dele, a do meu filho, que gosta de pensar.

Feliz aniversário, Joaquim, para você, que fala coisas que eu já não entendo, que está mais preparado do que eu para as imposições da nova ordem. Feliz aniversário para você, que tem muito a me ensinar.

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