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Fernanda Torres Por Blog Blog da atriz Fernanda Torres

Caos

Leia na crônica de Fernanda Torres

Por Fernanda Torres 15 set 2017, 20h31

Dia de sol na Guanabara, nove anos da morte de meu pai. A família rumou para a missa no Mosteiro de São Bento para relembrar a data.

O trânsito no Centro corria bem, muitas lojas fechadas e tapumes de madeira nas vidraças dos bancos. Alguma manifestação prevista, que justificasse a proteção? Não, era um dia comum. A prevenção tornou-se regra.

Uma amiga só conseguiu chegar no meio da cerimônia, parecia nervosa. Ao fim da missa, explicou o transtorno.

A bordo de um Uber, ela desceu a Ataulfo de Paiva, em direção ao Jardim de Alah, a caminho do Túnel Rebouças. Ao virar à esquerda, no início da Epitácio Pessoa, cinco homens armados de fuzis, FUZIS, interceptaram o carro. Nervosos, exigiam que motorista e passageira abandonassem o veículo; o que foi feito, com prontidão.

Atordoada, ela ficou parada, vendo a condução afastar-se, e o dia retornou à normalidade habitual. Não houve notícia, não houve alarde, nada. Nossa amiga tomou um táxi e a vida seguiu.

Um mês antes, um funcionário do escritório dela, habitante da Vila Cruzeiro, retornava para casa de carona com um amigo, quando o carro foi abordado por um bando na Avenida Brasil. Violentos, os pistoleiros jogaram os dois no asfalto e arrancaram, esfacelando o tornozelo do rapaz com a roda.

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A poucos quarteirões da esquina em que nossa amiga foi assaltada, a loja do Ponto Frio, no cruzamento da Henrique Dummont com a Ataulfo, seria invadida, dias depois, por homens armados de fuzis semelhantes aos da ação que a deixou a pé no Jardim de Alah. Dessa vez, a ocorrência saiu nos jornais.

Assustados com a terra de ninguém, muitos cariocas cogitam deixar a cidade. Mas o Rio não está sozinho na escalada de violência que enfrenta o país.

Um amigo, a bordo de um táxi em São Paulo, foi surpreendido por um paralelepípedo jogado de encontro à janela. Depois de arremessar o pedregulho, o gatuno invadiu o veículo com um três oitão em riste. Levou tudo, dinheiro e pertences, do passageiro e do condutor, mas a vítima telefonava aliviada, estava viva, afinal.

O desarranjo social e moral é endêmico. Ele é notório tanto na ousadia das gangues de rua quanto na falta de vergonha dos que traficam malas de dinheiro em pizzarias e apartamentos suspeitos.

Que diferença existe entre Geddel Vieira e o ladrão do paralelepípedo? Entre os cinco fuzis da Epitácio Pessoa e os acordos espúrios do Grupo JBS? Um é fruto do outro. Cada nota contada pela impressão digital de Geddel, cada sapato Louboutin da ex-primeira-dama do Rio, corresponde a uma escola, uma creche e um hospital, a uma tubulação de esgoto a menos nas comunidades carentes.

E cada creche faltosa, cada escola em ruínas, significa um garoto a mais cooptado pelo crime, um bonde de arruaceiros a mais em Copacabana.

Vestidos de terno Ermenegildo Zegna ou adornados com guardanapos de restaurantes chiques em Paris, os integrantes das quadrilhas que pilharam o Erário têm relação direta com o caos social que cidadãos comuns enfrentam, hoje, ao cruzar uma esquina.

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