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Fernanda Torres Por Blog Blog da atriz Fernanda Torres

Autodidata

Cresci certa de minha mediocridade. Não fui uma adolescente atlética ou especialmente bonita. Jamais demonstrei talento visível para a música ou para a matemática e não atravessei incólume as transformações da puberdade. Boa aluna, minha única característica louvável era ser dona de alguma capacidade de articulação. Até hoje, parece-me impressionante que um ser com tantas […]

Por admin - Atualizado em 25 fev 2017, 19h39 - Publicado em 1 jul 2011, 15h35

Cresci certa de minha mediocridade.

Não fui uma adolescente atlética ou especialmente bonita. Jamais demonstrei talento visível para a música ou para a matemática e não atravessei incólume as transformações da puberdade. Boa aluna, minha única característica louvável era ser dona de alguma capacidade de articulação.

Até hoje, parece-me impressionante que um ser com tantas reticências sobre si mesmo tenha conseguido se equilibrar minimamente nas próprias pernas. Não lembro de como fiquei de pé, foi o acaso, o imponderável acaso que me guiou.
Essa é uma constatação incômoda quando se trata de educar os filhos. Como orientá-los se não sei, ou esqueci, o caminho que fiz?
Cursei o primário em escolas experimentais dos anos 70. Na época, a liberdade era vista como a orientadora suprema da pedagogia. Essa noção caiu em desuso. Uma revisão dos excessos do período levou ao senso comum de que a escola, por mais aberta que seja, não pode fugir do seu papel de autoridade mediadora.

Na adolescência, concluí o ensino médio em um colégio de padres com perfil avançado. Foi o mais perto que cheguei de um ensino de excelência. Encerrei meus estudos logo após o vestibular, disposta a ser atriz e não mais sentar na frente de um quadro-negro.
Não tenho orgulho de tal histórico. Admiro a solidez dos colégios tradicionais e gostaria de ter feito faculdade. Mesmo assim, matriculei meus rebentos em instituições herdeiras da pedagogia que me educou, talvez por receio de criá-los de maneira diferente da minha. Até hoje me pergunto se tomei a decisão certa.

Na sala de parto do meu segundo filho, pedi aos médicos que me dissessem o nome do colégio que haviam cursado. Do anestesista ao obstetra, passando pelo pediatra e pelos principais assistentes, todos gabaritaram São Bento e Santo Inácio. O fato me deu segurança.

A responsabilidade exigida pela medicina requer dedicação e estudo. Tudo requer dedicação e estudo, mas em algumas profissões a falta de tais atributos pode levar à morte.

De todos os orientadores que tive — do tonitruante Moritz, a quem devo o fascínio eterno pela geografia, até a mais esquerdista das professoras de história —, a maior lição que recebi se deu com o professor Talvane, de matemática.

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Talvane foi meu mestre no 2º ano do científico. Era um homem de humor pragmático que tinha por missão, naquele semestre de 1982, ensinar as movediças leis da probabilidade a uma plateia hostil de estudantes desinteressados. Acostumado às adversidades e sem alimentar autopiedade, Talvane avançava impávido pelo terreno arenoso sem maiores delongas nem explicações.

O dia da prova se aproximava e eu não entendia patavina da matéria. Em pânico com a iminência de um redondo zero, desisti do mentor. Enfurnada no quarto com os livros, bati contra o muro de cálculos que mais pareciam hieróglifos por uma boa hora, até que, de repente, uma epifania aconteceu. As respostas passaram a se revelar antes mesmo de terminadas as contas. No lugar de fórmulas, a intuição; um estado prazeroso para além do esforço da razão.

A experiência não se repetiu. Não me transformei em uma aluna brilhante de lógica, física e geometria, simplesmente não tenho o dom, mas a surpresa de ter sido capaz de desenvolver um método próprio de aprendizado nunca mais me abandonou. Foi com o professor Talvane e a probabilidade que dimensionei o valor da palavra autodidata.

A capacidade de sustentar uma busca, a curiosidade que não dá trela à preguiça e a disciplina do interesse são traços imperiosos no desenvolvimento de um educando, tenha ele 8 ou 80, siga ele a corrente pedagógica que lhe convier.

As sete artes liberais — a gramática, a retórica, a dialética, a música, a geometria, a aritmética e a ciência — ainda norteiam o que nos é passado em aula. Elas foram definidas na Idade Média e levam essa alcunha por ser consideradas a base imprescindível da formação do homem livre.

É a liberdade no sentido mais amplo do termo: a capacidade de assimilar, apropriar-se e relacionar os diferentes ramos do conhecimento, canalizando-os para os seus objetivos pessoais.

Todo homem livre é um autodidata. Formá-los ainda é o grande desafio da educação.

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