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Faro na web As NOVAS vozes da cena musical brasileira contemporânea

Vai, Malandra!

Num país onde poucas pessoas são autorizadas a sonhar, Anitta prova que só realiza quem sonha.

Por Fabiane Pereira - Atualizado em 3 jan 2018, 13h10 - Publicado em 3 jan 2018, 12h43

Após duas semanas de recesso, estamos de volta. 2018 chegou com um espetáculo pirotécnico em Copacabana (e em quase todos os cantos do planeta) que pela primeira vez foi sincronizado a uma trilha sonora desenvolvida pelo produtor musical Daniel Lopes. Além de assistir a mais bela queima de fogos do planeta, as milhares de pessoas que lotaram a praia mais famosa do país queriam ver de perto o show da cantora Anitta.

É gente, desculpa! Eu tentei não estrear a primeira coluna de 2018 com um assunto do ano passado mas foi impossível. A Anitta me mobiliza. E, pelo visto, não mobiliza só a mim porque há quinze dias, desde que lançou o clipe “Vai, Malandra!“, gravado no Vidigal, comunidade localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, as redes sociais e os meios de comunicação analisam-na em larga escala. O clipe de Anitta é machista, é feminista, empodera as mulheres, subestima-nos – são algumas das frases lidas por aí. Antes de continuar, aviso: sou #teamAnitta e acho “curioso” (eufemismo para “sou incapaz de compreender”) que o corpo dela cause tanta comoção (#teamcelulite).

Num país onde poucas pessoas são autorizadas a sonhar, Anitta prova que só realiza quem sonha. Nascida numa comunidade pobre do Rio, cantando o gênero musical mais marginalizado da contemporaneidade e trazendo pro centro do debate a representação dos territórios ditos periféricos, a cantora tem mobilizado a opinião pública com sua arte como poucos artistas conseguem ao longo de suas trajetórias.

No ano em que atraiu para si todos os holofotes do show bussiness nacional, Anitta chegou ao Top 10 da Billboard, entrou na lista dos 10 artistas mais importantes das redes sociais, viu sua mais nova música na quarta colocação entre as mais escutadas pelo YouTube mundial e entre as 50 mais executadas no Spotify e emplacou duas canções simultâneas no Top 50 global do streaming (Downtown e Vai, Malandra), o que não é pouca coisa. E esses números tornam-se ainda mais relevantes se levarmos em conta que estamos falando de uma cantora de apenas 24 anos.

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Para além disso, deslegitimar umA artista que pensa cada passo de sua carreira, se auto gerencia e atinge números que jamais foram alcançados por nenhum outro artista brasileiro é, no mínimo, leviano (eufemismo para “machista”), não acha?

No mais, eu queria mesmo era ter participado do clipe. Subir o Vidigal de mototáxi, tomar sol na laje de biquini de fita isolante sem me preocupar com as celulites da bunda e ainda rebolar ao som do pancadão entre um monte de mina ‘daora’ e de boy magia. Anitta, me chama pro próximo?

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#ficaadica: o verão do FARO está quente como a estação preferida dos cariocas.

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divulgação/Facebook

Na terça, 9 de janeiro, o projeto Música na Laura com FARO está de volta à Casa de Cultura Laura Alvim com o show dos irmãos Domenico e Álvaro Lancellotti.  Eles vão se apresentar juntos acompanhados apenas de seus instrumentos. Em 2017, os filhos do músico Ivor Lancellotti lançaram trabalhos solos. O cantor, compositor e baterista Domenico (foto acima) encontra no recente álbum, Serra dos Órgãos, uma espécie de refúgio instrumental e criativo. Curioso, como tudo aquilo que vem produzindo desde o colaborativo Sincerely Hot (2003), parceria com Moreno Veloso e Kassin dentro do projeto +2, o trabalho montado a partir de recortes isolados sustenta em cada fragmento musical um conceito específico. Instantes em que o artista aposta no minimalismo e leveza dos arranjos, ao mesmo tempo em que preserva a forte relação com o uso de temas eletrônicos e flertes com a década de 1970. Já Álvaro (foto abaixo) lançou também no ano passado seu Canto de Marajó, um álbum que se pudesse ser classificado estaria na prateleira de “macumba romântica”. Tocando no samba moderno ou ecoando o que se convencionou chamar de nova música brasileira, Alvinho entoa um canto mântrico, um canto embarcação. Com ele, o cantor e compositor abre caminhos em mares ora míticos, ora reais ao longo das canções. Juntos farão um repertório misturando sons, canções e energias.

Se eu fosse você não perderia. Os ingressos custam R$ 20 (estudantes pagam meia) e o show começa às 20h, pontualmente.

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