O Brasil que eu quero

Marisa, Arnaldo e Carlinhos, a solidez de uma obra coerente é uma das coisas mais comoventes deste mundo.

Todos os dias leio que a cidade que escolhi chamar de minha está caótica, violenta, falida, um verdadeiro apocalypse now. Praqueles que, como eu, não têm o número de telefone da Márcia, as dificuldades parecem ainda maiores. (sobre)Viver numa cidade governada  por um pastor da Igreja Universal que desrespeita, sem pudor, as regras de um Estado Laico exige dos cariocas um esforço diário pela manutenção da sanidade mental.

Se você não mora no Rio, talvez leia estas primeiras linhas sem dar a elas a devida atenção. Desculpe, não é presunção. Ao contrário. É insegurança. Sei que você, na maioria das vezes, é um leitor atento mas para escritores inseguros, como eu, o medo de ser mal interpretada é recorrente. E sempre que falo sobre as dores e as delícias de ser carioca tento não reproduzir a narrativa idílica, tampouco a catastrófica.

A verdade, e acredito que todos concordam com ela, é que é preciso coragem pra morar no Rio (sorte e noções de técnicas ninja também). Coragem pra sair de casa e se aventurar por ruas com pouca iluminação e sem segurança, num sábado à noite. É mais fácil se render ao sofá (meu lugar preferido no mundo) após uma semana exaustiva. Mas envelhecer nos ensina, entre outras coisas, que o mais fácil nunca é o mais interessante. E quase sempre ir a shows é mais interessante que assistir a qualquer série no Netflix.

Ainda mais quando o show em questão reúne três dos maiores artistas do Brasil, num palco montado na Marina da Glória – um dos lugares mais bonitos de uma cidade que é apelidada de “Maravilhosa” -, cantando um repertório repleto de sucessos que atravessam a memória afetiva de uma geração, com um extraordinário cenário criado a partir de projeções visuais (obra de Batman Zavareze!). Nestas horas, a gente esquece completamente as dores de ser carioca e se esbalda com as delícias.

Marisa, Arnaldo e Carlinhos fazem parte do Brasil que eu quero. Na real, eles poderiam presidir juntos, tipo Santíssima Trindade, o Brasil que eu quero. Desde criança percebi que assistir a shows era uma espécie de férias. Por duas horas, é possível entrar num transe e abstrair de tudo. Passadas as duas horas, as férias acabam mas a gente já não é mais a mesma pessoa e a vida ganha um sentido diferente.

Há artistas que me fazem descansar de mim. Ser é uma coisa que cansa muito. Se desconstruir para se reconstruir dá um baita trabalho. Eu sei, este texto tá ficando abstrato demais. Tô com esse problema. Abstraindo pra sobreviver. E quando percebo já perdi o fio da meada. Mas é que não dá pra falar de Brasil nem de arte sem abstração.

 

Marisa, Arnaldo e Carlinhos, a solidez de uma obra coerente é uma das coisas mais comoventes deste mundo. Os versos de Carnavália, Vilarejo, Um a Um, Velha Infância, Já sei Namorar e das outras vinte e três canções do setlist são oxigênio e fazem um país inteiro respirar melhor.

A corrida presidencial para as eleições 2018 começa hoje e respirar será importante nos próximos meses. Sabendo disso, já estou ansiosa (porque ansiedade é o novo preto) pelas minhas próximas férias.

 

***

#ficaadica: começa hoje na Casa de Cultura Laura Alvim o projeto LAURA DE PORTAS ABERTAS. Todas as segundas, sempre às 19h, o porão da Laura será palco de um espetáculo artístico. Na estreia, esta noite, a cantora Duda Beat apresenta aos cariocas seu show. Na próxima semana, dia 13, a atriz Flavia Milioni levará ao centro cultural a peça “O Quadro”. Dia 20 é a vez da literatura dá as cartas com um bate papo descontraído entre as escritoras Maria Rezende, Paula Gicovate e Luiza Musschini. Encerrando a programação do mês de agosto, Laura Lavieri mostra as canções do seu primeiro disco ao público. Tudo de graça. Só chegar!

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