Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês
Fabio Szwarcwald Por Fabio Szwarcwald, colecionador de arte e diretor-executivo do MAM Rio

Os movimentos do MAM Rio

A partir de uma revisão crítica, museu vem desenvolvendo uma série de ações que atualizam seu papel na sociedade

Por Fabio Szwarcwald Atualizado em 5 out 2021, 11h20 - Publicado em 5 out 2021, 11h17

No dia 9 de outubro, o MAM Rio abrirá a coletiva Composições para tempos insurgentes, com curadoria de Beatriz Lemos, Keyna Eleison e Pablo Lafuente. Pensando o museu como um espaço expositivo ampliado, a mostra conecta o seu interior e arquitetura modernista a todo o entorno, que abrange o Parque do Aterro. De acordo com Eleison, a expografia foi pautada por relações triangulares na intenção de fugir de binarismos: “Um pensamento tríptico conduz diversas dinâmicas da mostra, que ocupará três espaços do MAM. É o número da Santíssima Trindade, bem como de Exu”, comenta a diretora artística.

Uma das principais divindades iorubás, Exu é aquele que faz a ponte entre o humano e o divino. É o princípio dinâmico da vida, que abre os caminhos e move as forças da natureza para gerar transformação. Orixá do movimento, Exu nos propõe desafios e muitos motivos para festejar. É um bom arquétipo para definir a atual fase do MAM Rio.

Apesar das adversidades impostas por uma pandemia de proporções trágicas, iniciamos um processo intensivo de reposicionamento que resultou numa série de ações. No ano passado, em meio à quarentena, lançamos um programa de bolsas de pesquisa e outro de residências artísticas, e democratizamos os processos de contratação através de chamadas abertas para os cargos de liderança. Também inovamos ao ser o primeiro museu fluminense a adotar o modelo de contribuição sugerida com possibilidade de acesso gratuito, abrindo passagem para todos os públicos.

De 2020 pra cá, o MAM Rio realizou 14 exposições e uma série de projetos que, entre outros aspectos, valorizam reflexões sobre o processo de construção da memória coletiva e suas narrativas de exclusão e apagamento.

No primeiro trimestre desse ano, a Estação Primeira de Mangueira protagonizou uma série de oficinas e seminários conduzidos pelos mestres e mestras da tradicional escola de samba carioca, trazendo para dentro do museu um conhecimento específico nem sempre valorizado com a grandeza que merece.

Continua após a publicidade

Agora em outubro, o MAM Rio também lançará Supernova, um relevante programa de exposições individuais que contempla a produção artística contemporânea das diferentes regiões do país. Este projeto contínuo do museu contribui para pensarmos a arte brasileira de norte a sul e de leste a oeste, a partir de concepções diversas em linguagens e autorias. De acordo com a curadora Beatriz Lemos, “o programa abre espaço para artistas cujas poéticas e presenças se estabelecem na constante negociação com o sistema da arte. Ao convidá-las a desenvolver projetos de exposições individuais, o MAM Rio se torna também um espaço de formação profissional”.

Em breve, anunciaremos a reabertura a sala de projeção da Cinemateca do MAM, fechada em março de 2020 em razão da pandemia. Segunda mais antiga no país e um dos mais importantes arquivos audiovisuais da América Latina, o equipamento mantido pelo museu é um centro de referência do cinema brasileiro e mundial dedicado à conservação da memória cinematográfica.

Para Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM, reproduzir uma sessão como era originalmente em 1895, com um piano ao vivo e em velocidade mais lenta, é uma oportunidade rara que talvez só a estrutura mantida pelo MAM Rio possa proporcionar às novas gerações.

Na coluna anterior, comentei que precisamos discutir o papel das instituições culturais na atualidade, reavaliando a relação dos museus acerca da construção da memória e do patrimônio. É urgente revisarmos os critérios que consagram uma obra como parte de um legado, questionando as presenças e ausências, bem como os apagamentos de certos acervos constituídos por artistas periféricos, racializados e de fora do eixo econômico do país. Sigo acreditando que esse é o caminho para que os museus atuem como agentes fundamentais de transformação histórica, social e de educação.

Que Exu – o dono dos caminhos – nos guie nessa revisão tardia mas necessária para a invenção de um novo futuro.

Continua após a publicidade
Publicidade