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Fabiano Serfaty Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc Saúde, prevenção, tratamento, dieta, bem-estar, tecnologia, inovação médica e inteligencia artificial com base em evidências científicas

Quando o sonho perde a validade?

Essa maldita maturidade. Foi com ela que todos esses questionamentos começaram

Por Sabrina Nigri* Atualizado em 9 set 2020, 19h05 - Publicado em 8 set 2020, 14h24

Acho incrível quando um de meus filhos, no auge de sua infância me afirma com toda convicção e categoria alguma de suas ideias. Lembro-me, vagamente, de aos dezessete anos ter todas as respostas do mundo. Aos vinte e cinco, comecei a ter dúvidas… A maturidade substitui as respostas pelas perguntas, e quem já a alcançou sabe que esse é o caminho que nos guia à evolução.

Meus filhos sabem qual profissão terão, onde irão morar, quantos filhos terão e quiçá, o nome do cônjuge. Ouço quieta e, às vezes, um sorriso brota. Não por escárnio, mas por felicidade ao ver tamanha pureza.

Quantas certezas já tivemos? Quantos planos já fizemos? Se somente um dos aspectos da vida estiver desagradando, ainda vá lá, mas e quando tudo está sendo diferente do programado? Nada do que fora planejado se concretizou e há a sensação de que se está cada vez mais desestimulado e longe de seus objetivos?

Mas, afinal, quais eram os objetivos? Os sonhos foram traçados quando ainda se era uma criança. Será que o prazo de validade tinha expirado? Eles permaneceriam intocáveis e imutáveis, apesar de tudo? Todas as suas experiências de vida, tudo pelo que passou, experienciou e viveu, nada mudou a sua existência? Você é, absolutamente, intransponível pelas ações da vida?

É claro que não! Então, como os seus objetivos, planos e sonhos seriam? O que, efetivamente, te pertence? Quais eram aqueles objetivos que eram dos outros e você achava que eram seus? Você queria ter filhos, ou imaginava que o mundo te exigia isso e tinha que corresponder a essa expectativa? Queria ser independente, bem‑sucedido profissionalmente, ou esse era o padrão que lhe servia como exemplo e pressupunha que deveria segui‑lo?

O que é ser bem‑sucedido afinal? Ganhar muito dinheiro? Ser reconhecido como uma referência na sua área profissional? Habitar em uma casa luxuosa? Ou morar em uma cabana com o seu amor?

E no campo sentimental? O que é ser feliz no amor? Ser monogâmico? Leal e fiel porque quem está ao seu lado é seu verdadeiro amor e isso basta, só isso te completaria e te satisfaria? É ter várias relações e se experimentar de todas as formas possíveis, tendo todos os tipos de prazeres, e quando o outro lhe demandasse mais atenção do que você estaria disposto a dar, simplesmente, sairia de cena? É nem ter “um outro” para abdicar, tendo relações físicas casuais e pontuais? É ser celibatário?

E quanto à família? Filhos? Um? Dois? Um casal? E se o segundo nascer do mesmo sexo? Tenta‑se um terceiro? E se também nascer do mesmo sexo? Tenta‑se o quarto até que se tenha um amontoado de menininhos ou menininhas?

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Padrão papai, mamãe e filhos está de bom tamanho? Casal sem filhos? Talvez um gato, no máximo? Ou quem sabe um cachorro? E experimentar o mesmo sexo, pode? Ser mamãe, mamãe e filhinhos?

De repente, a vida parece confusa. Justo com você, que sempre se achou tão cheio de certezas, de opiniões. Já não sabe mais se sua cor preferida é azul ou rosa. Se prefere ovo cozido ou frito. Se chupa cana ou assobia.

Essa maldita maturidade…  Foi com ela que todos esses questionamentos começaram. Mas a verdade é que em alguma hora eles apareceriam. Ou seria você capaz de viver sua vida inteira na mais completa ignorância sobre si mesmo?

Ah… Como tem vezes que a alienação parece ser uma bênção…  No entanto, só parece. O conhecimento lhe dá o poder de discernir e escolher o que é, efetivamente melhor para você. E saber lidar com essa responsabilidade é mais uma das vantagens do amadurecimento.

Uma hora você se deparará com o fato de que seus sonhos não se realizaram, não por falta de mérito, esforço ou sorte; mas, simplesmente, porque eles se modificaram no caminho. Não há motivação para se alcançar algo que já não te cativa, que para você, já não tenha significado algum.

Então, parabéns, você não é um perdedor, você é um sobrevivente que aprendeu a investir seu tempo e energia no que, de fato, merece sua prioridade e, enfim, novos sonhos foram criados.

Sabrina Nigri: psicóloga e escritora Arquivo pessoal/Reprodução

Sabrina Nigri*
CRP 0537453
Psicóloga graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Hipnoterapeuta formada pelo Instituto Brasileiro de Hipnose (IBH)
Pós graduada em Neurociências e Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica (PUC)
Escritora
Idealizadora, fundadora e diretora do projeto Em Boa Companhia
Nas redes sociais: @emboacompanhia1
Contato: emboacompanhia1@gmail.com

 

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