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Fabiano Serfaty Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc Saúde, prevenção, tratamento, dieta, bem-estar, tecnologia, inovação médica e inteligencia artificial com base em evidências científicas

Como a nossa pela pode salvar a própria vida

A pele é o maior órgão do corpo humano e tem relação direta com a nossa saúde física e emocional.

Por Fabiano Serfaty Atualizado em 29 abr 2021, 13h58 - Publicado em 27 abr 2021, 16h06
Dr. Fabiano M. Serfaty:
Em tempos de isolamento social e covid-19, várias alterações físicas e psíquicas estão ocorrendo com maior frequência e as alterações dermatológicas estão entre elas. Interessante salientar que a pele é o maior órgão do corpo humano e suas manifestações têm relação direta com a saúde física e emocional. A pele apresenta manifestações específicas das doenças que mais matam, como as doenças cardiovasculares, que são hoje a causa número um de mortalidade em todo o mundo. Reconhecer e tratar precocemente estas doenças é uma maneira de salvar a vida, de fato, de muitos pacientes, e a pele sendo o nosso órgão mais exposto e visível pode nos auxiliar no diagnóstico precoce destas doenças. Por isso, convidei o Dr. Fabrício Lamy, professor do Curso de Pós-Graduação em Dermatologia do Instituto Carlos Chagas / RJ  e coordenador do Ambulatório de Psoríase, Fototerapia e Terapias Imunobiológicas do Serviço de Dermatologia da Policlínica Geral do Rio de Janeiro (PGRJ) para falar sobre este relevante assunto.

Dr. Fabrício, como um bom exame clínico dermatológico pode ajudar a salvar a nossa vida ?

Dr. Fabrício Lamy:

Diagnosticar e tratar de forma mais rápida e eficaz qualquer doença que mata precocemente pode salvar muitas vidas. Através da pele temos uma sinalização do que pode estar acontecendo no organismo como um todo, a conhecida “manifestação cutânea das doenças internas”. Como você citou na sua pergunta, as doenças cardiovasculares, que são as que mais matam no mundo, podem apresentar manifestações cutâneas claras e específicas, assim como doenças como câncer, obesidade, diabetes, insuficiência cardíaca,

covid-19, dengue e doenças inflamatórias da pele, como a psoríase e o lúpus. Todas essas doenças tem um ponto em comum: a Inflamação.
Algumas dessas doenças inflamatórias da pele, como a psoríase, especialmente nas suas formas mais extensas, acabam sendo uma sinalização também de uma Inflamação sistêmica, de todo o organismo, e com isso todas as consequências desse processo inflamatório expõem esses pacientes a um maior risco de complicações que podem comprometer a sua vida, não só, nesse período de pandemia, de ter formas mais graves da covid-19, mas também de sofrer algum evento cardiovascular, que representa a maior das causas de morte de toda a humanidade. O evento cardiovascular chega a matar, em média, 10 vezes mais do que a própria covid-19, além de colaborar para os óbitos dela.

Dr. Fabiano M. Serfaty:

Outro ponto interessante, que cabe ressaltar é a publicação recente do estudo YOUNG-MI(1). Estes dados recém publicados são inédito na história medicina, porque este é primeiro estudo de coorte a demonstrar que adultos jovens com doenças inflamatórias, que apresentam manifestações cutâneas importantes, como
a psoríase e o lúpus, apresentam o dobro de mortalidade que os pacientes jovens sem estas doenças (1).

O maior risco de mortalidade do pacientes com estas doenças esta relacionado à inflamação crônica, portanto estes pacientes necessitam de uma abordagem global e não localizada apenas na lesão dermatológica específica.  O tratamento destes pacientes precisa ser médico e multidisciplinar, focando na redução global do risco cardiovascular e de morte, através de mudança do estilo de vida, dietas, exercícios e, caso indicados, os medicamentos.

Dr. Fabrício, quais são as novas evidências sobre medicamentos que podem colaborar para a redução do risco cardiovascular destes pacientes ?

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Dr. Fabrício Lamy:

As doenças inflamatórias da pele, como a psoríase, uma doença muito frequente, é muitas vezes encarada pelo médicos e pelos próprios pacientes apenas como uma doença “inestética”, que compromete apenas “o visual” da pessoa, apenas a pele de forma isolada, sem maiores consequências para a saúde como um todo, quando, na verdade, em muitos destes casos, a pele está colaborando para uma situação que leva a um maior risco de problema sério de saúde para o paciente. Novos medicamentos que conseguem tratar as formas mais extensas da Psoríase demonstram que esses pacientes passam a ter parâmetros inflamatórios mais controlados, além de uma melhora muito grande na qualidade de vida. Como exemplo, os inibidores de IL-17 demonstraram supostamente um efeito benéfico direto no risco cardiovascular, melhorando as funções endoteliais e microcirculatórias coronárias (2).

Sempre importante salientar que as medidas citadas por você acima, de mudança de estilo de vida, são também fundamentais, e que não devemos jamais desistir dos nossos pacientes.

Cuide da sua saúde, assim você estará cuidando da sua pele e cuidando do seu bem mais precioso: a sua própria vida.

Referências:

1. Association of inflammatory disease and long-term
outcomes among young adults with myocardial infarction: the Mass General Brigham YOUNG-
MI Registry.  Weber B et al. Eur J Prev Cardiol. 2021. doi:10.1093/eurjpc/zwaa154.
https://academic.oup.com/eurjpc/article-lookup/doi/10.1093/eurjpc/zwaa154

2. Association between the systemic treatment of psoriasis and cardiovascular risk.
Shi et al. Chinese Medical Journal: March 5, 2021 doi:10.1097/CM9.0000000000001249

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