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Fabiano Serfaty Por Blog

Campanha busca recursos para construir poço de água em PE

Disponível até 10 de agosto, crowdfunding precisa bater a meta de R$ 3 500

Por Ana Hupe - Atualizado em 25 jul 2017, 14h29 - Publicado em 24 jul 2017, 14h14

Imagino que a maioria dos leitores deste texto sempre tiveram, como eu, água encanada em casa. Dei-me conta deste privilégio, tão naturalizado, ao passar alguns dias no quilombo Conceição das Crioulas, no Sertão Central, em Pernambuco. Faz bem viver na pele para compreender. Tomei banho de cuia na casa de Maria de Lourdes da Silva, que me hospedou em seu quarto no mesmo dia em que me conheceu. Ela ria, irônica, ao me explicar que a torneira da pia e o chuveiro do banheiro eram “cenográficos”, esperam pelo dia em que a água vai correr por aqueles canos, já instalados.

Embrenhei-me numa expedição ao Sertão Central de Pernambuco em busca de faíscas de Maria Francisca da Conceição, nascida em São José do Belmonte, em algum ano no final do século XIX. Maria Francisca chegou à casa da minha bisavó em 1925 em Arcoverde, a 256 Km do Recife. Ela tinha mais ou menos 40 anos, não portava documentos e procurava trabalho. Trabalhou para minha família até 1961, quando faleceu no Rio de Janeiro. Durante estes 36 anos, nunca falou sobre seu passado, um silêncio que procurei reinventar ouvindo mulheres das resistências quilombola e indígena dos sertões e as imigrantes africanas que vivem no Recife hoje. Essa narrativa documental ficcional transformou-se na exposição “Muito futuro para uma só memória”, que possibilitou-me encontros com mulheres potentes como Lurdinha.

Maria de Lourdes da Silva, ou Lurdinha, como é conhecida, é presidente da Associação Quilombola Conceição das Crioulas, quilombo formado no fim do século XVIII por seis mulheres negras chegadas não se sabe de onde – elas também nunca disseram de onde vinham, talvez pelo mesmo motivo de Maria Francisca: enterrar o trauma do passado e recomeçar. Suposições.  As seis mulheres conseguiram comprar o terreno que batizaram de Conceição das Crioulas fiando e vendendo algodão. A escritura data de 1802. Até hoje, a comunidade é organizada por mulheres. Com o passar dos anos, fazendeiros dos arredores foram tomando aos poucos as terras das “crioulas”, fazendo um curral pro gado aqui, outro puxadinho ali, assim me explicam Lurdinha e Fabiana Mendes, outra líder da Associação Quilombola, cujos cargos de liderança  funcionam em revezamento. Fabiana é a responsável pelo setor educação. Com muita luta, em 2012, elas reconquistaram um bom pedaço de terra, quando uma fazenda foi expropriada. Para impedir que o terreno retornasse ao quilombo, o fazendeiro articulou membros do MST contra os quilombolas, chamando-os a ocupá-lo. Quando perceberam-se massa de manobra, os sem-terra se retrataram em carta, pedindo desculpas ao quilombo e se retiraram dali. As “crioulas” de Conceição literalmente driblam situações como esta diariamente. (Elas têm um time de futebol feminino que já chegou a ser vice campeão nacional!). A coragem de Lurdinha me impressionou. Nas nossas conversas, em sua cozinha, ela me contou que reuniu forças e conseguiu denunciar o ex-marido, com quem foi casada por vinte anos e teve três filhos, por violência. Ele ficou preso por quatro anos e hoje não pode se aproximar dela por mais de 30 metros, embora tenha construído uma casa que divide muro com a dela. Na porta de sua geladeira, tem um adesivo de quando se candidatou à vereadora, com o slogan: “arte, resistência feminina e fé”.

Arte, aliás é uma das marcas de Conceição. A economia local é sustentada pelo artesanato de cerâmica, colares de fibras de caroá, roupas bordadas, bonequinhas abayomi. Há uma coleção de onze bonecas feitas de caroá, em homenagem a onze mulheres da comunidade. Uma delas, Lurdinha. Da parteira que já fez 1001 partos; à benzedeira Mãe Dina e sua filha Maria dos Santos, que faz artesanato com o barro branco; às rodas de conversa ao redor do baobá; ao doce de umbú, Conceição das Crioulas é repleta de riquezas que não se compram. Vou contar sobre uma delas: a roça de Lurdinha. Ela estava ansiosa por me mostrar os três hectares que estão sob seus cuidados desde outubro de 2016 (toda a terra quilombola é coletiva, mas famílias podem tomar conta de partes dela, renováveis a cada cinco anos, com o aval da Associação) e fomos andando até uma porteira de madeira repleta de pedrinhas organizadas, marcando o caminho até uma Algaroba central. Em volta da árvore, “praga” da vegetação dos sertões, porque suga muita água, quinze penduradores para redes. Do alto do morro, Lurdinha dizia que pretende construir uma casa de taipa para servir de abrigo às ferramentas da plantação. Na parte do terreno reservada aos cactos: mandacarus, xique-xiques, quipás – plantas que outros agricultores rejeitam – Lurdinha quer fazer uma área pedagógica, para ensinar a transformá-los em doces.

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Por fim, chegamos à plantação de feijão, mandioca, milho, alface, coentro e outros verdes. Lurdinha lamenta que este ano a água foi tão pouca que a produção, toda orgânica, não deu nem para o sustento de sua família. Mostra-me o poço de 56 metros que cavou, brincamos com o eco que sai do seco: não apareceu água ali, mas o som veio de bênção, ela explica, sempre de bom humor. Aponta-me um outro local onde um especialista disse que há água e lastima-se por ter que esperar muito para furar, porque ainda está pagando o poço seco. Pergunto quanto custa para cavar este poço novo e ela me diz “3 mil reais”. Saí de lá com este valor martelando na cabeça três-mil-reais para mudar a realidade de uma família e por extensão, de uma comunidade. No caminho de volta, encontramos um esqueleto de um animal, provavelmente um burro, mas que instintivamente, chamamos de vaquinha. Mais uma vítima da seca. Fizemos fotografias mascaradas de vacas ao entardecer. Resolvi usar essas imagens para ilustrar a campanha: água para roçar ou uma vaquinha para Lurdinha.

Algumas questões me afligiram um pouco antes de criar a campanha: a ideia de arte travestida de assistencialismo social e principalmente meu lugar dentro da estrutura de poder. As mulheres de Conceição das Crioulas têm muita atitude e já conquistaram tantos direitos sociais, como a única escola municipal de Ensino Médio dentro de um quilombo do país, que, obviamente, não precisam de mim, mulher branca, para trazer solução alguma. No entanto, meu privilégio branco pode ser usado a favor destas mulheres, pois dentro do meu mundo, 3 mil reais são alcançáveis muito mais rapidamente. Portanto, esta campanha que é a extensão de uma pesquisa em arte, e talvez seja a arte em si possível em tempos urgentes, é feita com Maria de Lourdes da Silva e não por ela. Eu tenho computador, wi-fi 24h e uma rede de amigos e possíveis colaboradores, enquanto que, em troca, ganhei uma tarde no jardim aprendendo o nome de umbú-imburana-cordão de são francisco-juazeiro-pereiro-caatingueira e tantas outras formas de conhecimento incontáveis que precisamos ajudar a resistir para que tenhamos ainda um mundo após o fim.

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Ana Hupe/Arquivo Pessoal/Divulgação

Ana Hupe (www.anahupe.com) é artista visual, vive entre Rio e Berlim e se dedica a reunir uma contra-memória que desmanche o arquivo colonial. É doutora em artes visuais pelo PPGAV – UFRJ e atualmente apresenta a exposição “Muito futuro para uma só memória” na Fundação Joaquim Nabuco, Casa Forte, dentro do programa Residências Artísticas. Já fez exposições individuais no CCBB-RJ, Mario Kreuzberg Gallery (Berlim), Paço das Artes (MIS – SP), entre outros. Seus trabalhos são representados pela Portas Vilaseca Galeria (RJ).

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