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Fabiane Pereira Por Fabiane Pereira, jornalista

Mulheres do samba

Só por hoje, quero ouvir aquelas letras que me fazem lembrar como era a vida antes da pandemia

Por Fabiane Pereira Atualizado em 5 mar 2021, 16h37 - Publicado em 5 mar 2021, 15h52

Dizer que Tia Ciata foi uma mãe de santo e cozinheira que nasceu no século XIX é não fazer justiça com a história da música brasileira. As festas na casa de Tia Ciata reuniam pessoas de todos os tipos, músicos de todos os cantos e serviam, entre outras coisas, para a divulgação de sambas novos e novos sambistas, numa época pré rádio. O primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”, de Donga, nasceu em 1916 na casa de Tia Ciata. Mas o silenciamento da mulher é tão cruel que, por exemplo, a primeira imagem que temos de Tia Ciata surgiu só em maio de 1949, anos depois dela morrer (em 1924).

Tia Ciata é símbolo da resistência negra no Brasil pós-abolição e uma das principais incentivadoras do samba pois abriu as portas de sua casa para sambistas quando a prática ainda era proibida por lei. Baiana, levou o samba pro Rio de Janeiro e o resto é história.

Desde que surgiram os primeiros batuques do samba, a presença feminina foi fundamental para que essa cultura se perpetuasse. Porém passado mais de um século, as mulheres continuam sendo invisibilizadas na sociedade brasileira. Mulheres como Ciata, Dona Ivone Lara, Tia Surica (na Portela), Dona Zica (Na Mangueira) e tantas outras não tinham direito a própria voz no discurso artístico, ou seja, não eram consideradas “compositoras” (assim, entre aspas). Como a caneta que assinava o samba não era das mulheres, aparecíamos nas letras como musas, sedutoras, vagabundas ou traíras.

Mas estamos em 2021 – apesar de parecer 1968 – e mesmo com algumas conquistas já consolidadas, a luta para que a presença feminina seja normalizada no universo do samba é árdua. Na websérie “Pelas Quadras do Samba”, que tem ido ao ar neste mês no meu canal no Youtube, só consegui entrevistar uma compositora de samba enredo, Manu da Cuíca. E olha que não foi por falta de pesquisa.

Manu é carioca, formada em Letras e uma das autoras dos versos do samba antológico da Mangueira 2019 (“Brasil, chegou a vez… de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”). Apesar do riso fácil, seu discurso é contundente como pode ser visto na entrevista que está no ar no canal. “Há dois lugares que os homens permitem que as mulheres estejam nesse universo. O primeiro é o da tutela: eles vão querer te ensinar o tempo inteiro. O segundo é o do exotismo. Mas ambos os caminhos são ruins porque não temos direito a normalidade. Temos que normalizar inclusive as instrumentistas que tocam mal porque a regra não é a genialidade”.

 

Estamos a poucos dias do Dia Internacional da Mulher. Ontem mais de 1910 pessoas morreram por Covid no Brasil graças a completa incompetência de nossos gestores públicos. Então só por hoje, eu quero ouvir aqueles sambas que me fazem lembrar como era a vida antes da pandemia. Um outro tempo que já parece encarnação passada. Quero ouvir Clara Nunes, Beth Carvalho, Leci Brandão, Teresa Cristina e tantas mulheres que ajudam a fazer do samba o gênero musical mais popular do Brasil. Evoé!

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