Clique e assine com até 65% de desconto
Fabiane Pereira Por Fabiane Pereira, jornalista

Arte e política como forma de resistência

"Cinema, Democracia e Cartões Postais" de André Mussalem me fez reler "A Rosa do Povo", de Drummond

Por Fabiane Pereira Atualizado em 17 nov 2020, 11h58 - Publicado em 17 nov 2020, 11h28

Não é de hoje que artistas e escritores se apropriam da poesia para atravessarem tempos difíceis. “A Rosa do Povo” é uma coletânea de poemas escritos por Carlos Drummond de Andrade entre 1943 e 1945. Antes de serem publicados, muitos destes poemas, predominantemente críticos ao Estado Novo, percorreram o Brasil clandestinamente. Em “A Rosa do Povo”, os olhos do poeta se voltam, sobretudo, para as questões de seu tempo.

A relação entre o fazer artístico e o posicionamento político sempre existiu. Isso explica a tara que governos autoritários têm em censurar a cultura de uma sociedade. O vínculo entre arte e política desperta consciência crítica e amplia a compreensão da população diante do autoritarismo. Num recorte mais recente, desde 2013, muitos artistas, em especial àqueles que transitam no mercado independente da música brasileira, têm chamado a atenção da população com obras provocativas. Álbuns como “Rastilho”, de Kiko Dinucci, já mencionado nesta coluna, assumem dimensões políticas e sociais capazes de se tornar molas propulsoras de mudanças efetivas.

Na última sexta, o pernambucano André Mussalem, que há tempos se dedica a estudar o processo de formação do povo brasileiro por meio da música, lançou uma das canções mais emblemáticas desse período pandêmico: Cinema, Democracia e Cartões Postais. A faixa, já disponível em todos os aplicativos de música, trata deste momento ímpar que a humanidade vive, narrando simultaneamente o momento presente e um futuro distópico em que perdemos elementos da vida que apesar de parecerem cotidiano nos fazem muita falta. Como se não bastasse uma letra tão assertiva, Mussalem convidou seu conterrâneo Zé Manoel para participar da faixa. Zé é mais um exemplo já mencionado nesta coluna que, como Drummond, se apropria da poesia para atravessar tempos difíceis.

 

Continua após a publicidade

Conversei com Mussalem sobre seu processo de criação num ano tão atípico. “Democracia, Cinema e Cartões Postais” é o primeiro single do segundo EP da trilogia “Distopia” que seria lançado em abril mas aí veio a pandemia e alterou todos os planos. O próximo single do artista já tem data para ser lançado: 2 de dezembro.

 

Continua após a publicidade

FP: Seu processo de criação foi alterado durante o período de isolamento social?

AM: A maior parte das músicas de Distopia 02 já estava criada antes da pandemia. As letras e as melodias estavam prontas. E por incrível que pareça, elas já falavam sobre temas que se tornaram evidentes nesse processo tenebroso de doença e negação da doença pelo governo. Então, o que eu fiz foi alterar alguma parte da letra para deixar mais evidente a atualidade da canção, como é o caso de “Brasil 17, de Março de 2020”, cujo título foi alterado para dar essa sensação de atualidade. A única exceção foi “Cinema, Democracia e Cartões Postais” que apareceu em uma catarse e acabou ingressando no EP.

FP: Como transformar em arte tantas mazelas?

AM: Acredito que subverter tragédias em algo belo é um exercício diário de adequação e requer uma certa experiência para não ficar panfletário. Como diz Maria Bethânia “música é perfume”. A atração por uma boa canção é imediata, como o cheiro de algo bom. Mas ninguém coloca no rótulo do perfume “pandemia” ou “terra plana”. Então tem que ter muito cuidado e tato para se falar sobre esses temas e ao mesmo tempo deixar a música atrativa como uma fragrância que lhe pegue de imediato e gere identificação; Fora esse tato, falar sobre tragédias sociais nas canções é uma escolha que eu reputo como política. Se você é vocacionado para a atividade política, isso vai repercutir inevitavelmente na sua música.

FP: Como tem sido o processo de construção da trilogia DISTOPIA?

AM: Distopia é um processo feito a quatro mãos com Rafael Marques que tem arranjado para artistas do quilate de Zé Manoel. Eu escolho um tema dentro do gênero “Distopia”, geralmente influenciado por algo dentro da literatura ou do cinema, e vou construindo a canção. Converso com Rafa sobre as referências, ouvimos canções novas e velhas que outros compositores lançaram e definimos como essa música aparecerá para o mundo. No começo era na casa de Rafael tomando um café. Hoje é mais remotamente e bebendo algo mais forte pra poder aguentar esse rojão.

Continua após a publicidade
Publicidade