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Fabiane Pereira Por Fabiane Pereira, jornalista

Moraes Moreira me ensinou a ser como posso

Um adeus de longe e um beijo imenso pro Davi

Por Fabiane Pereira - Atualizado em 13 abr 2020, 15h07 - Publicado em 13 abr 2020, 14h07

Gosto de ouvir música aos sábados. Gosto de ouvir músicas em qualquer dia da semana. Só não ouço música quando estou lendo ou escrevendo porque sou monogâmica e não consigo dar atenção a duas paixões simultaneamente. No momento que escrevo este texto – e bebo uma taça de vinho tinto mesmo sendo segunda-feira, duas horas da tarde -, não ouço música mas no último sábado eu passei a tarde inteira na companhia de Moraes. Revisitei Acabou Chorare, um dos pilares da música popular brasileira. A faixa título do álbum homônimo dos Novos Baianos é uma composição de Moraes Moreira e Luiz Galvão.

Essa música tem uma história linda que envolve João Gilberto mas não convém relembrar isso agora. O que não é possível se esquecer é o legado de Moraes e suas cinco décadas de carreira. Criador de incontáveis sucessos, de frevos que embalam o Carnaval baiano desde a década de 1980, primeiro cantor de trio elétrico do país, com 45 discos lançados, alguns livros e um violão gigante, Moraes morreu. Ou como alguns preferem dizer, fez a passagem.

Não estava preparada pra perder Moraes mas não me espanta ele querer partir com o Brasil descendo a ladeira. Moraes, muitas vezes, foi meu remédio contra a solidão. Desejei, com toda força que meu pensamento é capaz de projetar, assistir a um show dos Novos Baianos e quando eles decidiram se reencontrar nos palcos, eu estava na fila do gargarejo. Dancei como se não houvesse amanhã e cada dia acho mais que só vale dançar se for assim – como se não houvesse amanhã – porque a gente nunca sabe quando o hoje será nossa última chance.

Moraes morreu. Moraes Moreira, o pai do querido Davi. Aquele que gentilmente pediu pra eu escutar a canção que era pra tocar no rádio, no rádio do meu coração. Moraes que deixou e recebeu um tanto e sempre continuará sendo um dos mistérios deste planeta. Moraes morreu em casa, dormindo. Todos nós deveríamos morrer assim. Há tanta poesia numa passagem silenciosa. Em quarentena há um mês, só me resta fazer uma oração, mandar um beijo imenso pro Davi, encher minha taça e aumentar o volume da minha vitrola porque aqui em casa, Moraes sempre será eterno.

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