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Esquinas do Esporte Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

A insubstítuível diferença que o drible faz

Há muito praças e padarias não amanheciam com a fragrância da seleção brasileira, idealizado refúgio contra o óbvio e a mesmice

Por Alexandre_Carauta Atualizado em 20 out 2021, 12h26 - Publicado em 15 out 2021, 19h10

A missão recrutava o heroísmo prosaico dos pais. Recuperar a mochila da filha, esquecida havia duas horas no banco próximo ao prédio da aula de dança. Continha o trabalho escolar do dia seguinte.

Difícil não foi o resgate. A mochila continuava lá, como se estivéssemos em Berna, Estocolmo, Helsinque.

Duro foi descolar uma alma para abrir o portão do centro corporativo já de pijama. A espera de dez minutos seria justificada com propriedade: “Desculpe, estava vendo o Mengão, né?”, sorriu gaiato o segurança, o rosto iluminado pelo golaço de falta.

O sorriso estende-se, por tabela, a todos os amantes do futebol. Há dois anos o conjunto regido por Éverton, Arrascaeta, Bruno e Gabriel ronda a galeria dos times admirados até por rivais.

Nela ecoam joias como a Máquina Tricolor; o Vasco de Romário e Edmundo; o Botafogo de Garrincha, Didi, Amarildo e Zagallo; o Flamengo de Zico, Júnior e Leandro; o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes; o Palmeiras de Ademir da Guia e Leivinha; o Corinthians de Sócrates, Zenon, Casagrande; o Inter de Falcão e Figueroa; e, claro, o Santos de Coutinho, Pelé e Pepe.

Douradas pela memória, essas maravilhas dispensam comparações. Bailam entre o escrete de botão e o antigo combinado do bairro.  Desfrutam a eternidade alcançada por títulos históricos, partidas memoráveis e, acima de tudo, pelo pacto com a beleza.

Mais que vitórias, equipes assim colecionam encantos. Cativam por uma dupla conexão: com a arte, sem a qual apequenamos; e com a identidade cultural do nosso futebol, atrelada à ginga, à ousadia.

O segurança hipnotizado pelo Fla na TV mergulhava não só no êxito sobre o Juventude (3 a 1). Era atraído pela espanada no pó dos gramados. O pó das chuteiras autômatas.

Por um lado, o amadurecimento tático aumenta a competitividade, valoriza o coletivo, amplia o repertório de jogadas. Por outro, redunda numa inflação de volantes pós-modernos. Defendem, atacam, esbanjam versatilidade. Carregam e tocam o piano, mas conservam o compasso da marcação.

A ciranda de volantes retrata certa pasteurização de times e mentes. Um contraste à multiplicidade de esquemas professados por treinadores e comentaristas em reciclagens semânticas.

Ora chamada de “linha alta”, a pressão sobre a defesa adversária, por exemplo, frequenta desde sempre a várzea, o soçaite, o futsal do fim de semana. O neologismo não altera sua utilidade, tampouco o desafio em calibrá-la às condições esportivas e físicas.

Por trás dos jargões técnicos, prevalecem inclinações ofensivas e defensivas – ou retranqueiras, como dizem as esquinas. Derivam para a polarização ilusória entre uma filosofia “propositiva”, centrada na posse de bola, cujo sucesso implica a conversão do domínio em gols; e uma filosofia reativa, não raramente sinônimo de sufoco, baseada na triangulação entre defesa eficiente, contra-ataque mortal e muito treino. Virou moda depois de endossar o caneco francês em 2018.

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O estilo ofensivo comanda a disputa e o coração do torcedor. Quem gosta de passar a maioria dos 90 minutos de olho no oponente? A tolerância com times “reativos” murcha tão logo se percebe uma esterilidade nos contragolpes, em geral escassos, e nos resultados.

O pendor ao ataque exige mais do que vontade, treinamento, tradição. Atribuído à escola brasileira, o modelo precisa combinar uma safra de jogadores virtuosos com uma inteligência capaz reconhecê-los e dar-lhes régua e compasso.

A combinação esbarra no êxodo de talentos, nos lapsos gerenciais, no medo de perder – o jogo, o emprego. Daí o estio de equipes impetuosas, cúmplices da imemorial excitação do torcedor com a iminência do gol.

Preliminares – arrancadas, tabelas, chutes – instigam a imersão no imponderável. Potencializam o êxtase da bola na rede.

Por isso o drible é essencial. Anda sumido, tragado no redemoinho de volantes. Emana uma beleza transgressora, pesadelo das retrancas, das pranchetas, do óbvio. A beleza de “quebrar a espinha do destino”, como Sérgio Rodrigues sintetiza, no romance “O drible”, aquele antológico truque de Pelé sobre o goleiro Mazurkiewicz, os colegas em campo, os espectadores da semifinal de 70. Nem os paranormais adivinhariam.

Com precisão de artilheiro, Sérgio observa: “Pelé já é Pelé. Está farto de saber que é um mito, um semideus, o que tem a perder tentando ser um deus completo? Aí ele não faz o certo, faz o sublime”. Os centímetros que lhe roubam o soco no ar não tornam o lance menos divino, menos inesquecível. Ali o Brasil já se fazia tricampeão.

Repetida um milhão de vezes, como tem de ser, a finta cultiva o frescor da transcendência. Jamais envelhece.

Todo drible tem algo de sublime, algo de transcendente. Uma espécie de pedra filosofal. Assim atesta a metamorfose esboçada na seleção brasileira com a entrada de um driblador.

Insinuante, Raphinha contagiou os companheiros e a torcida nos 4 a 1 sobre uma desbotada Celeste, quinta passada. Reatou Neymar com Neymar, o Brasil com o Brasil.

Há muito praças e padarias não amanheciam com a fragrância da seleção. Da seleção idealizada. Pelo menos nela haveríamos de entortar a espinha do destino.

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Alexandre Carauta é doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, também formado em Educação Física.

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