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Esquinas do Esporte Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

O cacife midiático do boicote histórico na NBA

Redes sociais reforçam apelo econômico sem o qual enredos antirracistas no esporte perdem fôlego ou ficam reféns da indiferença

Por Alexandre_Carauta - Atualizado em 3 set 2020, 14h01 - Publicado em 1 set 2020, 22h36

Mais de meio século separa o recente boicote na NBA da recusa do pugilista Muhamed Ali à convocação para a Guerra do Vietnã. Em comum, o engajamento na valorização das vidas negras e o cacife midiático-econômico dos envolvidos. Sem isso, os protestos dificilmente ganhariam projeção mundial e dimensão histórica. Teriam naufragado no lodo da indiferença, como tantas denúncias de discriminação não ouvidas, ou silenciadas, por omissão social e institucional.

Quando Cassius Clay declinou do Vietnã, em 1966, já havia faturado o ouro na Olimpíada de Roma. Firmava-se como um dos maiores boxeadores de todos os tempos. Certamente o mais mitológico. Já havia embarcado na campanha de Malcolm X pelos direitos humanos e se convertido ao islamismo. Virara Muhamed Ali. Estava com o pé no camarote das lendas esportivas. Ainda assim, a desobediência lhe custou três anos exilado dos ringues.

Pixabay/Reprodução

Para esquivar-se da convocação militar, Ali escalou razões religiosas e políticas: os Estados Unidos mandavam à guerra proporcionalmente muito mais negros do que brancos. A corajosa negativa integra o clipe de abertura do novo filme de Spike Lee, “Destacamento Blood” (“Da 5 bloods”, 2020), disponível na Netflix.

Diferentemente da maioria dos congêneres, o longa retrata a guerra sob a lente dos negros. Conta a jornada de quatro ex-combatentes de volta ao Vietnã para resgatar um tesouro e o corpo do quinto amigo, líder do antigo grupo. Ele é vivido, em flashbacks, por Chadwick Boseman, cuja morte, sexta-feira passada, aos 43 anos, despertou reverências mundo afora. A maioria delas reproduziu a saudação “Wakanda Forever”, popularizada com o sucesso do “Pantera Negra”. Assim fez o hexacampeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton no pódio da Bélgica, a quinta vitória em sete corridas da temporada. Tributos ao novo símbolo da causa antirracista foram replicados por celebridades da cultura, do esporte, da política. “Era um herói dentro e fora da tela”, tuitou a ex-secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton.

Antes de encarnar no cinema o primeiro super-herói negro da Marvel – criado por Stan Lee e Jack Kirby coincidentemente em 1966 –, Boseman interpretara personagens emblemáticos da luta contra o racismo nos Estados Unidos, como Malcolm X e Thurgood Marshall. A lista inclui o pugilista Rubin Hurricane Carter e o craque do beisebol Jackie Robinson, primeiro negro admitido na liga profissional americana, a MLB, em 1947.

Robinson encarou desafios comuns a negros que ousaram abraçar o esporte profissional na primeira metade do século passado. Desbravou um terreno minado pela segregação de gestores, colegas, torcedores. A perseverança e o virtuosismo conveniente aos interesses econômicos dobrariam o destino. Não sem o acúmulo de cicatrizes.

Perrengues semelhantes sofreram, entre inúmeros casos, Gentil Cardoso e Aída dos Santos. Gentil treinou todos os times grandes do Rio e do Recife, sua cidade natal. Foi campeão em 1946, com o Fluminense, e em 1962, com o Vasco. No Bonsucesso do coração, lançou Leônidas. No Botafogo, avalizou a contratação de um tal Garrincha. Nenhum mérito mostrou-se suficiente para furar a retranca a treinadores negros na seleção.

De quebra, Gentil Cardoso emplacou vários aforismos no folclore do futebol. “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência” até hoje é um mantra entre profissionais e peladeiros. Também partiu dele transformar zebra em sinônimo de resultado improvável (alusão ao jogo do bicho, no qual não consta a espécie).

O próximo 8 de setembro arredonda cinco décadas sem o técnico e frasista. Sua história e suas histórias merecem reconhecimento além dos almanaques.

Aos 83 anos, Aída é outra heroína da resistência lembrada bem menos do que sugerem os méritos esportivos e pessoais. Racismo, machismo, pobreza. Nenhuma miséria a impediu de seguir adiante. Nem o desdém do pai à carreira esportiva. Nem as recorrentes discriminações de técnicos e torcedores. Nem a falta de sapatilha e uniforme em plena Olimpíada de Tóquio, 1964, na qual era a única mulher entre os 68 competidores brasileiros.

Ao ganhar o estádio para a final do salto em altura, Aída passou por cima do abandono dos dirigentes e do machucado de última hora. Por pouco não beliscou o bronze. O quarto lugar era o melhor resultado feminino do Brasil em Jogos Olímpicos. O feito permaneceria por 32 anos, até o ouro de Jacqueline e Sandra no vôlei de praia em Atlanta.

O legado de Aída extrapola as façanhas nas pistas de atletismo e a inspiração à filha Valeskinha, campeã de vôlei nos Jogos de Pequim, em 2008. Seu pioneirismo, sopro permanente contra o racismo, é comparável ao de Jackie Robinson em meados do século passado. Até então, só brancos jogavam beisebol profissional. Robinson viveria as dores de um alienígena.

A saga é descrita no longa “42 – A história de uma lenda”, de Brian Heigeland. O 42 do título refere-se ao uniforme do craque. O número foi aposentado em 1997 por todas as equipes da MLB. Passariam a usá-lo só no dia 15 de abril, data escolhida para homenagear Robinson. A pandemia a adiou para 28 de agosto, justamente quando um maldito câncer tirava de cena Chadwick Boseman. Quarenta e oito horas antes, a NBA cravaria suas digitais mais profundas no ativismo antirracista.

A pedra estava cantada. Insinuava-se na reticência de jogadores quanto à volta da disputa em meio aos protestos contra o racismo estrutural e a violência fardada nos Estados Unidos. Estampava-se no incômodo de integrantes do Toronto Raptors durante a entrevista de terça passada, véspera da semifinal contra o Boston Celtics. O duelo e os outros dois confrontos marcados para quarta-feira acabariam suspensos.

Numa decisão atípica, os executivos da bilionária franquia trataram de adiá-los, ao perceberem a cascata solidária que acompanharia a recusa do Milwaukee Bucks em enfrentar o Orlando Magic. A noite conturbada faria mais do que roubar do futuro de Messi o protagonismo no noticiário esportivo. Calaria por três dias a bolha de Orlando, área da Disney na qual se concentram as partidas decisivas da temporada sob o fantasma do coronavírus.

O boicote materializou rumores em torno de um alinhamento veemente do basquete americano ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), desencadeado em 25 maio, quando o joelho do policial Derek Chauvin liquidou o segurança negro George Floyd. Escancarada pela internet, a asfixia no asfalto de Minneapolis recrudesceu seculares tensões raciais na maior onda de protestos desde a marcha liderada por Martin Luther King em 1963. Vitrine para ativismos políticos e sociais, o esporte midiatizado não ficaria fora dessa.

Clay Banks / Unsplash/Reprodução

O estopim do boicote nasceu no domingo passado, com os sete disparos policiais que alvejaram pelas costas o também negro Jacob Blake, enquanto ele entrava no carro. O jovem de 29 anos recupera-se num hospital de Kenosha, no estado do Wisconsin. Está paraplégico. Aquele 23 de agosto nunca será esquecido pelos três filhos que o aguardavam no automóvel. Aquela quarta-feira também vai ecoar por muito tempo na esquina entre a militância sociopolítica e o esporte.

A suspensão histórica dos três jogos indica contornos pragmáticos. Tomou-se a decisão mais prudente diante da enorme ressonância do boicote inicial. O astro LeBron James, do Los Angeles Lakers, logo o chancelou entre os mais de 100 milhões de fãs nas mídias sociais.

Reconhecidos pela competência gerencial, os dirigentes da NBA acionaram, como se diz no mercado financeiro, o circuit breaker. Uma providencial paralisação para arrefecer pulsações fora do compasso, combinar ajustes de curso e reequilibrar os negócios.

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O adiamento das partidas lavrou a estatura midiático-econômica dos negros no basquete profissional americano. Correspondem a aproximadamente 70% do conjunto de atletas. Formam o pulmão da invejável saúde financeira da liga, oxigenada pela receita anual de US$ 8,8 bilhões e pela audiência de 200 e tantos países. Não menos proeminente é a montanha de consumidores nas arquibancadas digirais de cobras (mais uma expressão de Gentil) como LeBron, Stephen Curry e Dwyane Wade: 125 milhões, 51 milhões e 44 milhões, respectivamente, estima a Forbes.

A rodada retornou no sábado, com a promessa escrita dos dirigentes de uma coalizão cívica para a justiça social. O compromisso envolve uma prorrogação além das quadras: ginásios servirão às urnas de novembro. Q campeão do basquete será conhecido um mês antes de os americanos decidirem o futuro da Casa Branca.

À palavra empenhada, somou-se o pragmatismo dos acordos comerciais que douram a NBA nos mercados interno e externo. Até os jogadores mais ativistas pensariam uma dúzia de vezes antes de descumpri-los. Só os direitos de transmissão rendem anualmente US$ 2,4 bilhões, distribuídos entre as 30 equipes.

Steve-Tulevski / Pixabay/Reprodução

O episódio não surpreendeu o repórter Luís Nachbin, cujo apetite jornalístico o levou às origens do Black Lives Matter. Ao longo de duas semanas de junho, dedicou-se a uma documentação cinematográfica da atmosfera de revolta em cidades americanas. Respirou os primeiros vapores da panela destampada com a morte de Floyd. Quatro dias e meio em Orlando permitiram-lhe farejar a indignação que culminaria no boicote deflagrado pela equipe de Wisconsin:

“A coisa estava estranha. Percebi que grande parte dos jogadores ficava desconfortável com a retomada do torneio menos por causa da pandemia do que pelo contexto social que clamava por justiça. Quando mais um negro (Blake) foi vítima de uma brutalidade policial, aí veio a gota d’água. Era o que faltava para o boicote da quarta-feira. Ele se incorpora a uma onda de protestos que me parece duradoura”, avalia o jornalista, também professor da PUC-Rio.

Pinta de road movie, a incursão de Nachbin pelas artérias americanas inflamadas dá vida ao documentário “Black and White”. Estará disponível agora em setembro, pela internet e no Canal Brasil.

Igualmente familiarizado com o contexto social dos Estados Unidos, onde morou por duas vezes, o ex-jogador de basquete e especialista em gestão esportiva Alexey Carvalho considera até certo ponto “natural” a manifestação dos jogadores do Bucks e a suspensão da rodada. Mas acredita que o peso econômico da NBA aplaque o risco de reincidências:

“Questões relacionadas à segregação estão historicamente inseridas na vida americana. Não sofri qualquer discriminação quando joguei no basquete universitário, entre 1987 e 1991 (pela Wayland Baptist University, do Texas). Mas, ao sair à noite com os meus colegas, uma hora a gente se separava: brancos e negros frequentavam discotecas específicas. Isso em pleno final dos anos 80”, recorda o ex-ala do Flamengo, Vasco e Botafogo. Ele arremata:

“O apoio contundente de esportivas americanos ao Black Lives Matter é esperado. Condiz com a forte presença negra em todas as modalidades profissionais, sobretudo no basquete. Mas duvido que haja mais boicote e suspensão dos jogos. Os americanos sabem muito bem que o show precisa continuar. Afinal de contas, a NBA movimenta muitos investimentos, muitos empregos, muita audiência”.

Tivesse um milésimo da audiência de LeBron James e outros campeões de popularidade na web, o ginasta Ângelo Assumpção encontraria sorte melhor do que a indiferença. Ele deixou a invisibilidade depois de uma reportagem do Esporte Espetacular. Ao denunciar o racismo sofrido no clube Pinheiros, em São Paulo, viu a indiferença virar demissão, relata o atleta, em entrevista ao ge.

A envergadura econômica e midiática de personagens esportivos é fiel da balança entre o avanço ou a evaporação de enfrentamentos ao racismo sistêmico. Fora as diferenças históricas e socioculturais, os cacifes mercantis-midiáticos modularam os enredos antirracistas que unem Robinson, Ali, Gentil, Aída, Ângelo e os medalhões por trás do boicote na NBA.

Mesmo fincada no pragmatismo econômico, a midiatização esportiva pode contribuir para transformar a sociedade. Consumar esse potencial são outros quinhentos.

Sob os holofotes de competições e personalidades, a cobrança de dívidas sociais ganha uma visibilidade mobilizadora. Costuma receber adesões de empresas e instâncias governamentais dispostas a revestir suas imagens de valores como cidadania, sustentabilidade e senso comunitário. Poucas vezes, no entanto, a fronteira da retórica e das ações paliativas é ultrapassada.

A Fifa e o Comitê Olímpico Internacional não perderam a chance de alinhar discursos ao repúdio de atletas famosos em relação a práticas racistas nos estádios e nas ruas. A NBA promete ser fiadora de uma coalizão cívica. Outras organizações do meio esportivo, inclusive investidores multinacionais, fazem coro. Descontadas as boas intenções, não deixam de jogar o jogo da reputação corporativa e do consumo. Nele a zebra não se cria.

Nunca é fácil converter o cacife econômico-midiático de agentes da indústria esportiva em vetor de mudanças sociais. Concretizá-las exige arranjos culturais, políticos, comerciais, legais, morais. Alguns analistas sugerem endurecer as sanções a comportamentos discriminatórios nos estádios e ginásios. Outros propõem investir em ouvidorias para facilitar e legitimar denúncias de racismo, machismo e demais violências. Há ideias e clamores importantes no horizonte. Há mais vozes e canais para iluminá-los, e dar-lhes vida. Há uma baita necessidade de melhorar muita coisa. A principal matriz da mudança é velha conhecida: educação, educação, educação.

 

 

 


Alexandre Carauta é jornalista, mestre em Gestão, doutor em Comunicação, e graduado em Educação Física

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