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Daniela Alvarenga Por Daniela Alvarenga, médica e dermatologista

A desconstrução da rainha de bateria

Mangueirense Evelyn Bastos transgride conceito de beleza e mostra sua voz  

Por Daniela Alvarenga - Atualizado em 20 mar 2020, 17h12 - Publicado em 28 fev 2020, 11h02

O carnaval 2020 vai ficar lembrado como uma plataforma importante de manifestações e defesas de causas, sejam elas políticas, ambientais, sociais, de gênero ou raciais. Uma das imagens que mais marcou o desfile das escolas de samba foi a apresentação de Evelyn Bastos, a rainha de bateria da Mangueira. Ao atravessar a passarela completamente vestida com um manto roxo bordado e sem sambar, ela chacoalhou o conceito de rainha de bateria.

Aos 26 anos, Evelyn rompeu com muitos padrões neste carnaval. Ela emocionou ao apresentar Jesus, enredo da verde e rosa, na forma de mulher negra – forte e linda. Ela revolucionou como musa da escola por estar completamente coberta – e, ainda assim, deslumbrante. Ela inovou ao optar por não sambar, mas interpretar. E, para ficar no tema da coluna, transgrediu a ideia de beleza atrelada às rainhas de bateria. Como sempre reforço,  o tal conceito de beleza que não deve respeitar padrões, este sim, é único.

Por romper tantas barreiras e aceitar correr riscos, Evelyn foi definitivamente um dos principais destaques deste carnaval – e certamente será lembrada nos próximos anos. Ela subverteu a objetificação da mulher como rainha de bateria e mesmo assim ganhou todos os holofotes. A musa da Mangueira conseguiu mostrar que beleza é um dos seus atributos, mas que ela tem muito mais a dizer. A rainha da verde e rosa soube como poucas abalar as velhas estruturas do samba através do corpo.

Como disse o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, uma rainha emplumada, coberta de cristais e seminua quer ser vista, mas uma rainha que atua e interpreta, quer ser ouvida. Ele tem razão e soube conduzir o percurso de sua musa na Avenida, usando a participação dela no desfile não como um enfeite, mas como reforço da história contada pelo enredo na Marquês de Sapucaí.  A evolução transgressora de Evelyn não ficou imune a críticas mas, como diz o samba-enredo da escola, com letra narrada na primeira pessoa pelo próprio Jesus, “Mangueira / Vão te inventar mil pecados / Mas eu estou do seu lado / E do lado do samba também”.

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