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Daniela Alvarenga Por Daniela Alvarenga, médica e dermatologista

Primeira receita: Acne na adolescência

Muitos adolescentes estão vendo sua pele piorar neste período de quarentena

Por Daniela Alvarenga - Atualizado em 29 jul 2020, 13h29 - Publicado em 1 jul 2020, 17h12

É quase unânime. Quase que 100% dos adolescentes que procuram um dermatologista nesta fase da vida têm uma reclamação em comum: acne. É na puberdade que os hormônios sexuais começam a ser produzidos alterando a aparência, o que ganha enorme importância na adolescência. O comprometimento estético determinado por esta transformação na qualidade da pele pode atingir o lado psicológico e tornar o adolescente inseguro, tímido, deprimido, infeliz, com rebaixamento da autoestima e acarretar consequências sérias que podem persistir pelo resto da vida, além de muitas vezes estar ligado ao bullying. Existem alguns estudos comprovando um índice maior de depressão e, em quadros mais graves, associando até casos de suicídio. Por isso, é um assunto muito sério e assim deve ser encarado pelos pais. 

Por se tratar de um fase da vida, em que o corpo passa por enorme transformação movida pelos hormônios, devemos ter em mente que a acne pode sim ser curada e controlada, porém, isso pode levar bastante tempo. A acne deve ser tratada o quanto antes. Está ultrapassada a ideia de que não se deve tratá-la por ser considerada “própria da idade”, “de desaparecimento espontâneo com o tempo” ou “de não ser doença”. Entre os motivos que devem ser considerados pelos pais ao levar seus filhos o quanto antes a um dermatologista para tratar acne estão, em primeiro lugar, as razões estéticas e autoestima do paciente, preservando assim a saúde da pele e também a saúde mental. Além disso, não se pode esquecer que um quadro intenso de acne pode acarretar cicatrizes difíceis de serem removidas, talvez irreversíveis, na fase adulta e, neste caso, o controle significa prevenção de marcas para a toda a vida.

O tratamento tem opções tanto de terapia local quanto por via oral ou a combinação de ambas. O engajamento do adolescente é fundamental para se alcançar bons resultados – e quando o sucesso é alcançado é muito bacana participar desta transformação que afeta até a personalidade do jovem. Por isso a relação médico-paciente é ainda mais importante.  

Muito comum em adolescentes, sem deixar de ser frequente também em adultos, principalmente em mulheres, acne é o nome dado a espinhas e cravos que surgem devido a um processo inflamatório das glândulas sebáceas e dos folículos pilossebáceos. As lesões costumam se concentrar na face, especialmente nas bochechas e na zona T, mas também podem ocorrer no corpo (ombros, costas e peito). Os sintomas principais são: cravos, pápulas (bolinhas vermelhas), pústulas (com pus) nódulos e cistos. As etapas de formação de uma espinha são quatro: aumento da secreção sebácea, obstrução dos poros, proliferação bacteriana e inflamação. No caso das meninas, soma-se também uma piora significativa no período pré-menstrual.

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Alguns medicamentos (como corticóides, vitaminas do complexo B, anticonvulsivos) e até suplementos, como anabolizantes, podem piorar o quadro. A época do ano também interfere na piora. No verão, a exposição exagerada ao sol e o contato com óleos e produtos mais gordurosos, como alguns filtros solares, também podem agravar. Além disso, a acne pode ser também um sintoma de um outro quadro, como no caso de ovários micropolicísticos, hiperplasia suprarrenal e até mesmo puberdade precoce. Como a genética tem papel relevante, é importantes que os pais que tiveram acne na adolescência levem seus filhos para consultar um dermatologista logo nos primeiros sintomas a fim de evitar cicatrizes.

O estado emocional também pode impactar o quadro de acne. A produção de cortisol, hormônio que pode ocasionar acne, aumenta quando estamos estressados. Portanto, manter a mente em equilíbrio auxilia no controle das espinhas. Somado a isso, agora vivemos um novo fator imposto pelo “novo normal” que também interfere no agravamento das espinhas: o uso de máscaras, que abafa a pele e retém a umidade, aumenta a oleosidade da pele, especialmente no queixo e nariz. 

O tratamento hormonal, com anticoncepcionais orais, é sempre útil para as mulheres, desde que não existam contraindicações. Quando não há uma boa resposta aos tratamentos e se percebe uma tendência para cicatrizes ou um importante impacto negativo na qualidade de vida, deve ser indicada o mais precocemente possível, e desde que não existam contraindicações, a isotretinoína oral, mesmo em casos moderados e até leves, caso o paciente não tenha aderido corretamente ao tratamento tópico. A isotretinoína (Roacutan) há muito já não é um bicho de sete cabeças. Mais de 20 anos de experiência nos permitem um conhecimento para flexibilizar a indicação. Contudo, esta droga é absolutamente contraindicada quando há possibilidade de gravidez, pois pode causar danos graves ao feto. Os efeitos colaterais mais comuns são: ressecamento dos lábios, nariz, olhos, pele do corpo; aumento do colesterol, triglicerídeos e enzimas hepáticas, e portanto, são necessários exames de sangue antes e durante o tratamento.

Deve-se lavar o rosto religiosamente duas vezes ao dia com produtos específicos – não mais do que isso, para não criar um efeito contrário, que aumente a oleosidade. Então, por mais que a preguiça tome conta, o jovem deve lavar o rosto ao acordar e antes de dormir. É preciso evitar manipular a lesão, por maior ou “mais feia” que ela esteja no momento. Não esprema, não passe os dedos, não belisque em hipótese alguma, pois isso pode levar à infecção, inflamação e cicatrizes. Existem casos de internação com necessidade de antibiótico venoso devido à bactéria atingir a corrente sanguínea pela “espremeção” principalmente próximo ao nariz, região muito vascularizada. 

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Procedimentos complementares que ajudam no controle da acne são: extração de cravos, drenagem de abscessos, infiltração com corticóides em lesões nodulares muito inflamadas ou em cicatrizes elevadas, peelings químicos, microdermabrasão, alguns tipos de laser, luzes e esfoliações químicas. A limpeza de pele, quando bem indicada pelo dermatologista e bem executada por esteticista treinado, pode ser um ótimo complemento do tratamento de algumas formas de acne. Mais um lembrete importante: na hora de escolher o filtro solar, que é um importante coadjuvante no tratamento, opte por fórmulas oil free. E fique atento à alimentação, porque ela também pode interferir. É importante optar por um cardápio saudável, com ingestão de alimentos de baixo índice glicêmico.

Esta é um informação muito conhecida, mas ainda assim, precisamos reforçar sempre que a acne não é contagiosa e não está relacionada à “sujeira” da pele ou do sangue.  É uma alteração muito comum nesta fase da vida, como já mencionei. Quanto mais falarmos do assunto, desmistificando o tema, melhor. Quase todo mundo já passou ou irá passar por isso. Comece o quanto antes a cuidar da acne. Não espere marcar a pele para depois tentar apagar.

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